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O cenário atual do ensino superior no Brasil
Ryon Braga · Especialista em pesquisas e estudos de mercado no setor educacional e pioneiro no Brasil no marketing aplicado ao setor educacional; · pesquisador, consultor e assessor de marketing e planejamento estratégico em mais de 120 instituições de ensino em todo o Brasil; · graduado em Marketing e pós-graduado em Marketing de Serviços, Metodologia Científica e Neuropedagogia (Bases Neurológicas do Aprendizado e Comportamento); · presidente da Hoper Educacional e conferencista com participação em mais de 1.500 eventos nos últimos 14 anos; co-autor dos livros Marketing educacional e Planejamento estratégico sistêmico para instituições de ensino; editor da Revista Linha Direta e presidente do Conselho Editorial da Revista @prender. O crescimento da iniciativa privada na área do ensino superior não é um fenômeno apenas nacional, mas mundial, devido a diversos fatores, mas, principalmente, à limitação da capacidade dos Estados em manterem o financiamento adequado às necessidades educacionais de sua população. No Brasil, a expansão do ensino superior tem sido liderada pelo setor privado. À medida que ele se expande e se dinamiza, traz elementos positivos tanto para o setor produtivo (que passa a contar com pessoal mais qualificado) quanto para o campo social, uma vez que aumentam as chances de inclusão social das pessoas, considerando sua inserção em um mercado de trabalho cada vez mais exigente e o acesso aos bens de consumo, cada vez mais sofisticados e complexos. Mesmo que ainda existam algumas controvérsias, já está disseminada em nossa sociedade a idéia de que a educação é a base para a mobilidade social e para o aumento de renda das pessoas, trazendo ainda impactos globais na qualificação da mão-de-obra e no conseqüente incremento nos investimentos empresariais. À medida que o setor de ensino privado se consolida como um dos mais importantes setores da economia em nosso país, seus aspectos administrativos e suas políticas de negócios passam a ocupar lugar de destaque na estrutura do setor. O setor de ensino superior privado no Brasil foi responsável por um movimento ímpar de expansão ocorrido entre os anos de 1996 até a presente data. Os principais fatores que contribuíram para essa expansão foram: a) Flexibilização das regras para a abertura de cursos e instituições, ocorrida no governo Fernando Henrique Cardoso, com o Ministro Paulo Renato Souza, a partir de 1995. b) Regulamentação da lei que permitiu a existência de IES constituídas de empresas com finalidades lucrativas, em 1999. c) Existência de uma enorme demanda reprimida entre os anos de 1996 e 2002. d) Universalização do ensino fundamental, com conseqüente crescimento do ensino médio, ocorrida também no governo Fernando Henrique Cardoso. e) Retorno aos estudos de boa parte das pessoas oriundas da População Economicamente Ativa (PEA), que já havia concluído o ensino médio há cinco anos ou mais. Sob todos os aspectos analisados, a expansão do ensino superior privado só trouxe vantagens para o aluno e para o país, melhorando o nível educacional da força de trabalho, aumentando a empregabilidade individual das pessoas (alunos) e gerando centenas de milhares de empregos no setor. No entanto, essa expansão chegou ao fim. Agora, o momento é de consolidação. A demanda de alunos, que chegou a crescer mais de 150% nos últimos anos, está estável. Não passaremos de 1,4 a 1,5 milhão de alunos ingressantes no ensino superior por ano. Com isso, não há mais espaço para o crescimento do número de IES ou de cursos (vagas) na proporção em que vinha ocorrendo. Acontece que os “empresários” do setor não acordaram para essa realidade. Ficam fazendo contas, considerando a demanda de alunos formados no ensino médio que ainda não acessaram o ensino superior, como se essa demanda fosse real. Acontece que os quase 900 mil alunos que se formam no ensino médio e não entram no superior não podem ser considerados como demanda real, pois, na atual conjuntura socioeconômica do país, eles não têm a menor condição de cursar uma universidade. A despeito disso, o setor insiste em crescer a qualquer custo, causando um movimento especulativo e pernicioso de brutal “diluição da demanda”, uma vez que a taxa de ingressante/vaga já chegou a preocupantes 0,5. Ou seja, para cada 100 vagas, entram apenas 50 alunos. Essa “crise” levará a uma quebradeira das pequenas IES (pelo menos 400 delas desaparecerão até 2008) e a uma consolidação das médias e grandes IES (fusões e aquisições). Quanto às IES estrangeiras, o movimento não é tão grande quanto parece. Pelo que se sabe, existem apenas quatro grupos internacionais com interesse no Brasil. Um já entrou (a Laureate), comprando a Anhembi; outro entrou e saiu (Apollo com o Pitágoras) e está tentando entrar de novo; e há outros dois grupos sondando possibilidades. Isso é pouco para o tamanho do barulho feito pela mídia. Por outro lado, apesar do fim do crescimento da demanda, da crise especulativa e da guerra de preços que acometem o setor, o negócio de ensino continua sendo muito atrativo, pelos seguintes motivos: · Apesar de não crescer mais, a demanda é grande e constante. · A grande maioria das IES é muito frágil do ponto de vista competitivo (pela incompetência na gestão), de forma que quem for bom mesmo deve ficar com “uma fatia maior do bolo”. · Há uma miríade de oportunidades educacionais ainda não exploradas completamente pelas IES brasileiras, principalmente no que diz respeito à educação permanente (tudo aquilo que vem após a graduação). Em um futuro próximo, a IES poderá ter um aluno não mais por quatro anos, mas por 40. Evolução da demanda no setor privado Entre os anos de 1997 e 2003, o setor privado viveu um período de crescimento exponencial, aumentando a sua demanda (alunos ingressantes) em 154%, com uma média anual de 16% de crescimento (Gráfico 1). No entanto, em 2003, já começou a dar indícios de desaceleração no crescimento da demanda, apresentando um crescimento de apenas 8% em relação ao ano anterior e, em 2004, a demanda ficou praticamente estável, com um crescimento de apenas 2%. ![]() Em números absolutos, o setor privado passou de 392.041 ingressos em 1997 para 1.015.868, em 2004. O ensino superior, como um todo (público + privado), passou de 573 mil para 1,3 milhão de ingressos no mesmo período (Gráfico 2). ![]() A demanda no ensino médio e sua repercussão no ensino superior ![]() O ensino médio brasileiro conta hoje com 9 milhões de matriculados no ensino regular e 10,2 milhões de matriculados, se somarmos o ensino regular com a Educação de Jovens e Adultos – EJA (Gráfico 3). Após um período de forte crescimento do número de matrículas no ensino médio, proporcionado pela universalização do ensino fundamental, ocorrida no governo Fernando Henrique Cardoso, levando o ensino médio brasileiro a obter taxas de crescimento de 5% ao ano (de 1998 a 2004), entramos em um período de significativa redução deste crescimento (Gráfico 4). A taxa de crescimento ocorrida em 2004, no ensino médio regular, foi de 0,4%, e na soma entre o regular e a EJA, o crescimento foi de 2,1%. Já em 2005, a taxa de crescimento do ensino médio foi negativa, com queda de 1,5% no número de alunos matriculados no ensino médio regular. ![]() Projeção da demanda no ensino médio até 2010 Para o período de 2004 a 2010, estimamos um crescimento muito pequeno na demanda do ensino médio, que deve ficar em 0,4% ao ano, em média. Em 2005, existiam 10,2 milhões de alunos matriculados no ensino médio e EJA. Em 2010, estaremos com 10,6 milhões de alunos (Gráfico 5). ![]() Esta estimativa é resultado de uma análise baseada nos estudos do IBGE em que se considerou a projeção da taxa de escolarização líquida (número de alunos matriculados no ensino médio, com idade entre 15 e 17 anos, dividido pela população na faixa etária entre 15 e 17 anos) e da taxa de escolarização bruta (total de matrículas no ensino médio dividido pela população com idade entre 15 e 17 anos), bem como a população estimada pelo IBGE (Tabela 1). ![]() Perspectivas para o ensino superior Considerando a projeção de crescimento do número de ingressantes associada à evolução da taxa de conclusão do ensino superior, podemos estimar o número total de matrículas que o setor terá de 2006 a 2010 (Gráfico 6). Se a atual taxa de conclusão (percentual de concluintes em relação às matrículas iniciais) permanecer em torno de 60%, chegaremos a 2010 com 5,6 milhões de alunos no ensino superior. Se a taxa de conclusão subir para 70%, em 2010 teremos 5,7 milhões de alunos no ensino superior brasileiro. ![]() Para entender melhor o comportamento da demanda, é preciso lembrar que a previsão do crescimento populacional no Brasil para os próximos anos, na faixa de 18 a 24 anos, não é muito animadora para as IES privadas. De 2005 até 2010, a população brasileira na faixa de 18 a 24 anos terá encolhido em 4,2% (Gráfico 7). ![]() O perfil da competitividade no setor educacional Em todos os setores, inclusive no educacional, o conceito de competitividade vem se transformando a cada ano e adquirindo nuances inéditas. Já está longe o tempo em que os concorrentes de uma escola eram apenas as outras escolas situadas na mesma região. Hoje, as instituições de ensino começam a enfrentar a concorrência de diversos novos entrantes, entre os quais o Ensino a Distância, os cursos livres (universidades abertas), as instituições corporativas (universidades corporativas), as de ensino setorial (universidades setoriais) e as instituições de intermediação. Atualmente, o setor de ensino no Brasil está sendo confrontado por uma ampla gama de desafios competitivos: a) O crescimento da capacidade instalada e do número de vagas é muito maior do que o da demanda. Nos últimos anos, a taxa média de crescimento do número de vagas foi de 34% ao ano, contra 15% do crescimento da demanda (Gráficos 8a e b). ![]() ![]() b) A expansão do setor não foi planejada; há excesso de IES em determinadas regiões. Pelos dados do censo, temos 2.013 IES, porém o Inep já registra mais de 2.300 IES autorizadas. c) O crescimento da concorrência levou a relação ingresso/vaga a despencar para a proporção de 0,50 ingresso por vaga nas IES privadas, gerando um excesso de vagas ociosas (Gráfico 9). ![]() d) Queda no poder aquisitivo real do brasileiro. Nos últimos cinco anos, o poder de compra do salário dos trabalhadores brasileiros amargou uma queda de 25%. e) Grandes instituições de ensino esgotaram sua capacidade de crescimento em seu local de origem, e agora buscam sua expansão por todo o território nacional. Relação ingresso/vaga e candidato/vaga A cada ano, vem caindo a relação ingresso/vaga no ensino superior privado no Brasil. No último censo (2004), a proporção estava em 0,50 ingressante para cada vaga. O percentual de 50% de vagas ociosas já é bastante significativo, uma vez que a parte do excesso de vagas utilizado para “reserva técnica”, feita por muitas IES como forma de se preservarem da instabilidade e dos “humores” do MEC, não ultrapassa o índice de 40% das vagas ociosas. O restante é ociosa mesmo. Essa baixa relação ingresso/vaga é preocupante para o mercado e denota claramente o nível de agressividade competitiva que o setor vem apresentando. “Diluição da demanda” O crescimento do número de vagas, de 1999 a 2004, foi de 172%, frente a um crescimento de 78% no número de ingressantes no mesmo período. Este descompasso entre a oferta de vagas e a real demanda de mercado Gráfico 9 – Fonte: MEC/Inep e Hoper Educacional vem provocando um fenômeno denominado “diluição da demanda”, ou seja, mesmo crescendo, a cada ano, o número de demandantes (clientes em busca de um curso superior), o crescimento em percentual maior do número de vagas causou uma diluição maior destes clientes entre as vagas e as IES. Em termos populares, podemos dizer que o bolo cresce, mas há mais gente para dividi-lo, cabendo um pedaço menor para cada um no final. Já percebendo o desaquecimento da demanda, o censo de 2003 registrou também uma desaceleração na oferta de vagas. A média do crescimento de vagas de 1997 a 2003 foi de 23% ao ano, reduzindo-se para 17% no ano de 2003. No entanto, em 2004, o censo mostrou estabilização na oferta de vagas, ficando com a mesma taxa de crescimento do ano de 2003, em torno de 17%, aumentando ainda mais a “diluição da demanda”, uma vez que o crescimento de ingressantes no setor privado foi de apenas 2% em 2004. O ritmo de abertura de novas IES e a oferta de vagas nas IES existentes não indica que o setor irá parar de tentar se expandir. Das mais de 2 mil IES privadas existentes hoje, 1.000 surgiram nos últimos seis anos. A maior parte dessas novas IES tem menos de 500 alunos e de dois a cinco cursos superiores, e pretendem (e precisam) aumentar consideravelmente o número de cursos (e, conseqüentemente, o de vagas) nos próximos anos. Se, hipoteticamente, estas 1.000 pequenas IES buscarem apenas dobrar o número de vagas e cursos nos próximos três anos (e provavelmente tentarão fazer mais do que isso), elas irão colocar no mercado mais 600 mil vagas, aumentando em 30% o número de vagas oferecidas. Considerando que não há mais aumento significativo da demanda, esse expressivo aumento de vagas irá intensificar profundamente a chamada “diluição da demanda”. Novos entrantes A abertura do setor de ensino superior promovida pelo MEC a partir de 1994/1995 possibilitou a entrada de inúmeros novos players no mercado. O setor estava acomodado em confortável situação: excesso de demanda, ciranda inflacionária, que permitia grandes ganhos com o giro do dinheiro das mensalidades, e margens de lucro altíssimas. Os novos entrantes não só estavam dispostos a aceitar uma margem de lucro menor (porém ainda bem razoável), mas também perceberam que poderiam ter custos muito menores do que os das IES já estabelecidas, através de processos de gestão mais eficazes e da retirada da “perfumaria” que acompanhava o processo educacional tradicional. Desse modo, nasceram instituições mais enxutas, oferecendo um serviço educacional sem muitos “acessórios” e atrativos, mas bom o suficiente para uma grande parcela da demanda, que nunca tinha tido a oportunidade de sequer sonhar com a possibilidade de freqüentar um curso superior. Essas empresas (IES) foram chamadas de empresas insurgentes, ou empresas disruptivas. As IES ditas disruptivas entraram no mercado “por baixo”, cobrando bem menos e se localizando em pontos estratégicos, de fácil acesso. Inicialmente, atraíram alunos menos exigentes e com menor poder aquisitivo. Com o tempo, muitos clientes (alunos) foram percebendo que o produto que essas IES ofereciam não era muito diferente dos produtos oferecidos pelas IES tradicionais (já estabelecidas há mais tempo). Com isso, as IES disruptivas foram conquistando não só o novo mercado (das classes C e D), mas também “roubando” alunos das classes A e B das IES estabelecidas. Isto se deu porque a diferença de qualidade percebida era muito pequena entre os dois grupos, mas a questão da conveniência (localização, preço e acesso) era muito mais vantajosa para o cliente no grupo das IES disruptivas. Atualmente, o número de IES insurgentes, que nasceram visando atuar com as classes C e D, já é bem significativo, a ponto de exigir do mercado novos elementos de inovação disruptiva. Espera-se a entrada de novos disruptores no setor educacional, provavelmente embasados em elementos da tecnologia da informação. Atualmente, o setor privado encontra-se no início de uma polarização, definindo dois perfis de IES que terão vida longa. De um lado, as IES que conseguem inovar disruptivamente e se tornam competitivas para um enorme contingente de pessoas que ainda são pouco críticas e priorizam a conveniência (preço, localização, acesso e demais facilidades). Do outro lado, as IES que são bem-sucedidas na complexa tarefa de mostrar ao público que possuem diferenciais qualitativos que justifiquem seu preço mais alto. Como já foi dito, nos últimos dez anos, o setor de ensino superior privado teve sua expansão favorecida por uma demanda significativa de clientes que, até então, eram excluídos do processo educacional nesse nível. Para essas pessoas, nessas circunstâncias, fazer um curso superior, qualquer que fosse e onde fosse, era uma excelente opção, pois elas representavam uma geração em que eram as primeiras de suas famílias a cursarem o ensino superior. O objetivo, a meta e o desafio eram conseguir concluir um curso superior. O restante (qualidade da IES, tipo de curso etc.) era apenas um plus, não era significativo. Este fenômeno ocorreu com boa parte da classe C em todo o Brasil, e agora começa a ocorrer com a classe D. São empregados da construção civil, porteiros, domésticas, babás, camelôs, vigias, entre outros, que passam a ter a possibilidade de fazer um curso superior, pois há instituições disruptivas se preparando para atendê-los. Por outro lado, teremos em breve uma segunda geração de pessoas da classe C demandando o ensino superior. Com toda a certeza, essa nova geração será mais criteriosa, exigirá mais elementos qualitativos, já terá amigos e parentes que fizeram um curso superior lhes fornecendo abundantes elementos comparativos sobre as IES. Portanto, o padrão da IES disruptiva que obteve grande sucesso em atrair alunos da classe C nos últimos oito anos não será mais suficiente para continuar atraindo alunos dessa classe socioeconômica, dentro de alguns anos. É preciso entender, no entanto, que o mais importante não é se o cliente é da classe A, B ou C, mas sim as circunstâncias em que se encontra, e que estão em constantes mudanças. Em síntese: até agora, o principal concorrente das IES era a incapacidade de se fazer um curso (pagar por ele). Elas concorriam contra o não-consumo. Quando chegar ao limite esta nova demanda de mercado (e já chegou), a concorrência será essencialmente pela conveniência (circunstâncias assim determinam). Após uma ou duas gerações que escolheram pela conveniência, as demais gerações estarão aptas a perceberem que o mercado de trabalho não considera que os diplomas sejam todos iguais, e que seu valor relativo (do diploma) já não é tão significativo. Nesse momento, a competição vai se dar mais por atributos qualitativos e diferenciadores. Referências bibliográficas BOLETIM EDUCAÇÃO & CONJUNTURA. São Paulo: Paulo Renato Souza Consultores, v. 3 a 17, 2006. BRAGA, Ryon. Análise setorial do ensino superior privado no Brasil. Vitória: Editora Hoper, 2006. CENSO DO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO 1999 – 2004. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 2005. PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICÍLIOS (Pnad). IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2004. |