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O que está mudando no ensino superior particular?
Gabriel Mário Rodrigues · Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior – Abmes; · reitor da Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo – SP A educação superior privada no Brasil iniciou o seu desenvolvimento a partir dos anos 70. Na ocasião do “milagre econômico”, o país se orgulhava de apresentar uma das mais altas taxas de desenvolvimento desde o início daquele século. Ou seja, a economia estava pronta para absorver idéias e iniciativas diferentes e empreendedoras. Com o aumento da população e o desenvolvimento industrial, a década de 70 passou a viver o período conhecido como “fenômeno dos excedentes”, quando os estudantes que eram aprovados nos vestibulares das instituições de ensino superior públicas não conseguiam as vagas das faculdades. As instituições particulares nasceram no país durante um período em que o Estado não tinha condições de atender à demanda universitária crescente. Foi com a missão de desempenhar esse papel que, a partir do esforço e da iniciativa de profissionais, grupos de amigos e famílias empreendedoras e visionárias, nasceram as primeiras faculdades, que, depois de ingentes esforços, se transformaram em expressivas instituições universitárias. Como qualquer atividade cujo crescimento foi baseado em demanda reprimida, o setor vive hoje uma outra realidade, dentro de um cenário de mudanças e com o desafio de encontrar soluções que garantam a sua perenidade. A mudança do mercado e o surgimento da concorrência tornaram imprescindível a aplicação das melhores técnicas de gestão para a perpetuação da atividade. Um dos grandes desafios atuais é passar de um modelo apoiado no trabalho empreendedor dessas famílias e grupos de amigos – responsáveis pela iniciativa do setor naquele período – para um modelo baseado na gestão profissional. Existem ainda outros fatores que nos convêm enumerar: nos últimos anos, o número de instituições privadas de ensino superior cresceu muito no Brasil e, na virada do século, alcançou o patamar de mil instituições. Os últimos dados do Inep/MEC revelam que essesetor, que em 1980 apresentava 682 instituições particulares, tem hoje cerca de 2 mil. O ensino superior privado,que alcança 70% da população universitária, cresceu, aprimorou suas instalações, a qualidade de seus cursose organizou-se para atender da melhor forma à grande demanda existente. Desde o início dos anos 70, o cenário modificou-se, e muito: de 96 mil alunos matriculados em 1960 (42 mil em instituições particulares), verificou-se um crescimento de 425 mil alunos, na década de 70 (215 mil nas particulares). Em 1980, o número de alunos já chegava a 1,37 milhão (885 mil nas particulares). Em 1990,foi a 1,54 milhão de alunos (961 mil nas particulares). Há dois anos, os dados do Inep mostraram cerca de 4 milhões de matriculados (2,98 milhões nas particulares). Todavia, esse grande crescimento, estimulado pela demanda reprimida que existia até então, acabou por provocar a exaustão do setor, com a cada vez mais acirrada concorrência entre as instituições e a oferta de vagas superior à demanda. Em cidades como São Paulo, a ociosidade está próxima dos 50%. A adoção de políticas agressivas de baixos preços nas mensalidades acarreta a muitas instituições um momento de crise, com grande dificuldade no preenchimento de suas vagas. Os desafios para promover o crescimento sustentado não são simples. Os dados do Censo do Inep/MEC mostram que, em 2004, existiam 2.985.405 alunos matriculados em instituições privadas, em 343 cursos. Desse total, apenas 34 cursos concentravam 88% do alunado, ou seja, 10% do total de cursos. O impacto dessa distribuição não uniforme das matrículas trouxe graves conseqüências para muitas instituições, que passaram a conviver com vários cursos deficitários. Uma situação cada vez mais comum mostra instituições convivendo com classes vazias e turmas pequenas. Ao mesmo tempo, as instituições tornaram-se menos eficientes na alocação de seus docentes e, por essa razão, seus custos são maiores. Esse fato, aliado ao aumento das despesas de marketing e à queda na procura, bem como ao aumento da concorrência, é uma das razões que explicam a crise financeira vivida por muitas instituições no momento. A economia brasileira desenvolveu-se muito pouco nos últimos anos, bem abaixo do crescimento do setor educacional. A tendência mostrou que, passada a fase de atendimento da demanda reprimida, o lento ritmo de evolução da economia brasileira não foi capaz de dar sustentabilidade aos crescentes custos das instituições. Além disso, o mercado de trabalho não se expandiu e, com isso, o poder de compra da população também diminuiu. Para complicar, a faixa da população com idade de 18 a 24 anos começou a viver substancial declínio no seu ritmo de crescimento. Instituições de nicho devem refletir profundamente sobre os cursos que oferecem, de forma a manter aqueles que de fato estão em sintonia com seu posicionamento mercadológico. Aquelas que possuem sólida tradição em cursos na área de negócios, por exemplo, devem pensar muito bem sobre a conveniência de manter cursos em outras áreas. Da mesma forma, instituições de escopo mais amplo precisam estudar melhor o segmento em que atuam, para alinhar seu portfólio a essa demanda. Para ilustrar a tendência, as instituições focadas em segmentos mais populares do mercado devem analisar detidamente a conveniência de manter cursos mais caros, como os de medicina e odontologia. Já as instituições que procuram segmentos de elite devem ponderar sobre a adequação das graduações de pedagogia e geografia, por exemplo. A grande ociosidade de vagas existente nas IES está provocando um embate acirrado em determinadas cidades, onde a principal estratégia empregada tem sido a política de preços baixos. É difícil acreditar, todavia, que essa política venha a se sustentar em longo prazo, especialmente nas instituições que não nasceram com modelos de baixo custo em sua cultura e em sua estrutura organizacional. A questão da qualidade também causa grande polêmica nessa área, uma vez que não é um elemento tangível. Em termos de mercado, a qualidade é percebida pelo cliente. No setor educacional, essa percepção é de difícil racionalização. Raramente o aluno analisa o projeto pedagógico do curso ou a composição de seu corpo docente, antes de optar por essa ou aquela instituição. O peso da marca e sua reputação permanecem como um elemento intangível muito forte. As avaliações feitas pelo Estado ou por órgãos da área levam tempo para ter credibilidade e não são contínuas. Outro ponto importante é o financiamento da qualidade: as instituições privadas trabalham com orçamentos, em média, três vezes menores que as instituições públicas. Isso impõe enormes dificuldades, especialmente à pesquisa, que não tem como ser financiada apenas com as receitas geradas pelas mensalidades dos alunos. Em função da concorrência, os investimentos em comunicação e marketing aumentaram muito. Hoje, o setor educacional é reconhecidamente um dos principais anunciantes do país, acima de várias indústrias consolidadas. Evidentemente, esse fato traz implicações consideráveis para a gestão das instituições e também salienta a necessidade de serem encontradas alternativas à publicidade de massa. Um dos caminhos mais prováveis é a estratégia de marketing de relacionamento. Mais do que nunca, a entrega do serviço educacional depende de uma equipe de professores capaz e motivada. As instituições que desejam sobreviver neste novo mercado precisam compreender que o corpo docente é seu principal ativo e não limitar – de nenhuma forma – os investimentos realizados em capacitação e aprimoramento profissional da universidade. O impacto da tecnologia ainda não é um ponto sensível para o setor educacional. O que existe nesse sentido ainda é muito modesto, e restrito a sistemas de gestão educacional e a poucas iniciativas em termos de Educação a Distância. Entretanto, há toda uma geração sendo formada e acostumada com ferramentas como Orkut, blogs,Messenger e tantos outros. A instituição educacional do futuro será aquela que conseguir combinar essas ferramentas com conceitos pedagógicos construtivistas, pois, nesse cenário, as salas de aula tradicionais perderam muito de sua importância. A realidade nos mostra que não há mais como trabalhar com base exclusivamente na intuição. No entanto, ela não deve ser abandonada definitivamente. Afinal, grandes mudanças surgiram a partir de procedimentos nada ortodoxos. Mas há que se combinarem métodos e modelos profissionais de gestão, tais como as pesquisas de mercado, o geoprocessamento e o business intelligence. Apenas com essas ferramentas é possível estruturar um trabalho gerencial com políticas de incentivos (bônus) e baseado no cumprimento de metas. Localização A questão da localização precisará ser profundamente revista. A começar pelo marco regulatório. Em um mundo globalizado e com o avanço dos sistemas de comunicação, não se pode mais pensar na sede física de uma instituição. O aprendizado deverá ocorrer em qualquer lugar e em todos os lugares. Uma instituição de ensino não poderá mais ficar restrita a essa ou aquela cidade, nem mesmo a esse ou aquele país. Com todas essas mudanças, a arquitetura dos prédios universitários também deverá passar por mudanças profundas. As bibliotecas, da forma como as conhecemos, deixarão de existir e serão substituídas por potentes servidorescomputacionais – verdadeiros repositórios de dados –, e com acervos muito maiores que os já existentes, especialmente em função da facilidade de compartilhamento que o sistema permitirá. As salas de aula darão espaço a salas de reunião, e as exposições presenciais diárias darão espaço a momentos com grandes oradores, em anfiteatros reservados para centenas de pessoas e conectados com sistemas de teleconferência pela internet. Novo aluno De todas as mudanças do setor, talvez esta seja uma das mais significativas: o aluno de hoje é completamente diferente daquele de dez anos atrás. E o que está por vir será ainda muito mais. A começar pelas relações de autoridade. Os pais e mães que trabalham muito se tornaram ausentes de seus lares e, em muitos casos, procuraram compensar essa ausência com outros “benefícios”, que resultam no excesso de liberdade. As conseqüências disso são enormes, e com profundos reflexos na sala de aula. São cada vez mais constantes os conflitos entre alunos e professores. O jovem de hoje é fruto de uma hiperestimulação, com o advento da internet, iPod, TV a cabo, telefone celular, controle remoto etc. Esses recursos não existiam há dez anos e submetem o jovem a um processo de excitação que, inevitavelmente, o leva a considerar entediantes – muitas vezes insuportáveis – as longas e tradicionais aulas expositivas. Portanto, a época romântica da criação de faculdades ou a pretensão de lançar opções em graduações aleatoriamente, na base do impulso e da emoção, ou de entrar no negócio da educação pensando apenas em ganhar dinheiro está, definitivamente, com os dias contados. Os tempos atuais exigem planejamento e desenvolvimento de técnicas e estratégias empresariais para que estejamos preparados para enfrentar as nuances de um mercado mutante e, principalmente, com o propósito de oferecer cursos que atendam às expectativas de alunos. Estes buscam apoio para se tornarem os profissionais respeitados do futuro e, acima de tudo, cidadãos felizes. Que precisam ter muito clara a percepção de que o mundo mudou e de que aprender não acontece mais somente entre as paredes de uma sala de aula, mas em qualquer lugar. |