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Além da notícia - Em análise, a imprensa como ferramenta de ensino dentro da sala de aula
Soraia Herrador Costa Lima · Jornalista do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp); · mestranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP; · professora de Teoria da Comunicação na Faculdade Anglo Latino. Introdução O material jornalístico que não tem caráter publicitário e é publicado em jornais diários passa por um complexo processo, que começa bem antes de o veículo chegar ao leitor ou de o repórter entregar sua matéria ao editor responsável por determinada seção. Quando o jornalista seleciona assuntos que ocuparão as pautas diárias, ele está, na verdade, realizando uma “filtragem”, para escolher temas que estejam dentro da linha editorial do periódico e sejam de interesse público. A seleção de assuntos que constarão na pauta também obedece a certos critérios que estabelecerão a diferença entre informação e fato jornalístico. O profissional da imprensa, por sua vez, observará o fato para interpretá- lo e transformá-lo em uma mensagem que irá às páginas do jornal. Ele deve ser objetivo e ético, para que o conteúdo da matéria fique mais próximo do modo como o fato ocorreu. Compreender todas essas passagens para se ter uma visão mais ampla do que é o jornalismo e as mídias que o representam é um quesito decisivo na hora de se fazer uma análise apurada dos veículos impressos. Porém, também é válido lembrar que a leitura não é um ato unilateral e que conhecer um pouco melhor a prática jornalística não fornece embasamento suficiente para se trabalhar o jornal em sala de aula. Segundo Orlandi (1983, p. 53), “a leitura é o momento crítico da constituição do texto, é o momento privilegiado da interação, aquele em que os interlocutores se identificam como interlocutores e, ao se constituírem como tais, desencadeiam o processo de significação do texto.” Assim, é preciso considerar que o leitor faz parte desse processo, mesmo porque o ato comunicativo acontece a partir do trinômio Emissor – Mensagem – Receptor, proposto por Claude Elwood Shannon, o responsável pela difusão de um sistema geral de comunicação. E é somente trabalhando essas três vertentes que se podem estudar de forma mais detalhada os veículos impressos em sala de aula. Dessa forma, serão abordados, neste artigo, os conceitos que norteiam, ou pelo menos deveriam orientar os jornalistas durante o desempenho de suas funções, o modo como esses conceitos interferem no resultado e como os textos noticiosos podem servir como ferramenta de ensino e reflexão dentro de uma abordagem mais abrangente. Jornalismo: uma mistura de vários conceitos e práticas Jornalismo se aprende mesmo é fazendo. Kovach & Rosenstiel (2003, p. 66) afirmam que o jornalismo é reativo e prático, não filosófico ou introspectivo. (...) As teorias de jornalismo ficam nas cabeças dos acadêmicos, e grande parte dos jornalistas sempre desvalorizou o ensino profissional, argumentando que a única forma de aprender o ofício é por osmose nas tarefas do dia-a-dia. Entretanto, mesmo tamanha práxis necessita de um quê de teoria que a sustente. Assim, há estudos que fundamentam e procuram conceituar a prática jornalística. Isso não quer dizer que essa prática esteja exposta de maneira explícita em livros e teses. O fazer jornalístico possui certos padrões e normas tão conhecidos que nem sempre precisam ser codificados para existirem nos cotidianos das redações. Para entender como funciona “o fazer jornalístico”, é necessário, primeiramente, compreender o que é o jornalismo e as etapas que o compõem. Alberto Dines, renomado jornalista brasileiro, escreveu um bom conceito do que vem a ser o jornalismo. Segundo ele, é a busca das circunstâncias para chegar à verdade. Não podemos ter a pretensão, nem a arrogância de sermos os donos da verdade. Somos, sim, humildes buscadores da verdade. Essa busca incessante da verdade é uma tarefa permanente, o que Kant chamou de missão interminável, Die Unendliche Aufgabe. (DINES, 2005). Dessa forma, percebe-se que a verdade é uma das ferramentas para a construção do jornalismo como um todo, ou seja, teoria e prática. Mas ela não é apenas uma ferramenta; é também um objetivo a ser alcançado na produção da notícia, matéria-prima da prática jornalística. Mas a verdade é apenas um dos objetivos que o jornalismo almeja. Há mais elementos que permeiam a produção dos textos noticiosos. E, para que isso ocorra de uma maneira proveitosa para todas as partes envolvidas, tanto o profissional quanto a empresa jornalística devem sustentar as tarefas do jornalismo, conforme Kovach e Rosenstiel (2003, p. 22 – 23): A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade. Sua primeira lealdade é com os cidadãos. Sua essência é a disciplina da verificação. Seus praticantes devem manter independência daqueles a quem cobrem. O jornalismo deve ser um monitor independente do poder. O jornalismo deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público. O jornalismo deve empenhar-se para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante. O jornalismo deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional. Os jornalistas devem ser livres para trabalhar de acordo com a sua consciência. Mais do que tarefas, esses são parâmetros a serem seguidos. São metas que norteiam as atividades jornalísticas. Entretanto, de nada valem tais preceitos se o jornalista não se lembrar de outros pontos igualmente importantes para o jornalismo, como a ética, o interesse público, a objetividade e o timing. Prática jornalística: algo a ser considerado Da mesma maneira que a prática jornalística influencia o material final, ter conhecimento sobre ela, mesmo que superficialmente, é fator decisivo para que o leitor possa se posicionar de uma forma mais crítica perante textos noticiosos. Principalmente se for considerado que o país atualmente conta com uma taxa de analfabetismo de 10,5%1 e que os textos de jornais são mais fáceis de serem assimilados que outros tipos de leitura, uma vez que contam com uma linguagem mais simples. Adquirir o hábito de ler jornais e revistas, além de textos literários e didáticos, ajuda na formação intelectual de crianças e adolescentes, mantendo-os informados e atentos para o que ocorre na sociedade na qual estão inseridos e no mundo. Entretanto, a simples leitura de textos jornalísticos não pode ser feita de uma maneira mais completa se não forem consideradas as formas e os princípios norteadores da composição das reportagens, matérias, artigos e editoriais desses jornais e revistas. Isso porque, segundo Benites (2001, p. 35), o jornal exerce uma função política, através da utilização de dispositivos sutis como a apresentação, em tom aparentemente imparcial, de fatos positivos ou negativos a respeito de idéias, de instituições ou de indivíduos; através da ordenação hierárquica das notícias; através da supressão de uma matéria ou de sua inserção truncada; através da escolha do trecho de um discurso a ser relatado e da forma como se dá esse relato; enfim, através da valorização ou do menosprezo de fatos. Os bastidores dessa seleção das notícias, as formas como esse processo acontece são necessários para que se saiba, por exemplo, por que há tantos erros gramaticais nos textos noticiosos. Talvez, se professores e alunos soubessem o tempo limitado que cada jornalista possui para apurar, escrever e editar essas matérias e reportagens, eles não fossem tão críticos quanto às “tentativas de homicídio” cometidas contra a língua portuguesa diária e semanalmente. Esses detalhes são relevantes para que se compreenda um texto jornalístico em toda a sua complexidade. Esses aspectos, muitas vezes esquecidos na hora de se trabalhar um jornal ou uma revista em uma sala de aula, podem fazer a diferença no momento de se ler esse tipo de texto. Através dessa abordagem mais ampla, alunos e professores poderão ter um posicionamento ainda mais crítico sobre o material que estão analisando e/ou produzindo. Esse embasamento, portanto, faz-se necessário para um novo olhar sobre as notícias. Para que esses leitores tratados neste artigo percebam que a voz do jornal não é onipotente, uma vez que o texto não é um produto acabado; sua construção se completa no momento da recepção, ou seja, a reflexão do leitor é uma forma de argumentação que o leva a posicionar-se, a determinar se deve ou não dar crédito àquilo que lê. (BENITES, 2001, p. 35). Mais do que uma ferramenta de ensino Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) propõem que a educação brasileira seja praticada de maneira a dar subsídios a uma formação ampla, estabelecendo certos conceitos, procedimentos e atitudes que sustetem tal formação. Mas esses mesmos PCN’s garantem aos textos noticiosos um valor maior do que vem sendo empregado dentro das escolas. Isso porque, ao utilizarem jornais e revistas como objetos de análise ou como exemplos na produção de seus próprios impressos, os professores estimulam seus alunos a trabalharem de uma maneira mais lúdica, espontânea e libertária, o que contribui para o desenvolvimento do pensar desses jovens. E, ao raciocinar sobre as coisas que acontecem ao seu redor, esses estudantes dos ensinos fundamental e médio adquirem um novo tipo de pensamento, que os preparará não só para as próprias disciplinas da escola, mas, também, para a vida. Assim, o jornalismo e os veículos impressos devem e podem ser abordados de diferentes formas, fazendo com que o professor trate esse tema com os seus alunos de três maneiras: o estudante leitor, o estudante fonte e o estudante produtor de informação. Por meio dessas três vertentes, os textos jornalísticos ganham uma análise mais ampla e transdisciplinar. Embora muitos educadores ainda relutem em utilizar os jornais e revistas como uma ferramenta de ensino, essa prática já se mostrou bastante eficaz e faz parte do ambiente escolar há mais de dois séculos, em diferentes países do mundo. Há registros, por exemplo, na Noruega, de artigos de jornais que datam do início do século XX mencionando técnicas revolucionárias de ensino através do jornal. A Espanha é outro país que mudou suas tradições ao substituir, em algumas escolas, a leitura de Miguel de Cervantes pela de periódicos, em pleno final do século XIX. Mas um dos exemplos mais conhecidos da presença do jornal na sala de aula foi a realizada por Celestin Freinet, através de seu Jornal Escola. Nesta iniciativa, datada do começo do século XX, Freinet elaborava técnicas para a produção de um jornal com seus alunos. Essas técnicas consistiam na produção diária de textos livres, que depois seriam agrupados em uma encadernação mensal para assinantes. O objetivo era ajudar o estudante a situar-se no mundo, trabalhar os sentimentos e desenvolver a socialização. Entretanto, na esteira do que foi realizado em 1932 pelo New York Times, que se tornou pioneiro na área ao distribuir suas edições nas escolas, algumas empresas brasileiras criaram programas específicos para trabalhar seus próprios veículos dentro da sala de aula. Esses programas contam com o apoio da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e têm por principal objetivo incentivar o uso de jornais e revistas como materiais didáticos, uma fonte de consulta mais atual, que também serve para aproximar os alunos do que acontece no Brasil e no mundo. Mas é preciso lembrar que este tipo de programa busca, pelo menos em sua maioria, cativar novos leitores que, habituados àquele veículo desde crianças, mantenham-se fiéis a ele quando adultos. É por isso que não se deve defender apenas a presença de veículos impressos, sejam eles jornais ou revistas, dentro da sala de aula. Deve-se, da mesma forma, incentivar esses estudantes a elaborarem seus próprios textos e tipos de mídia, de modo que essa prática lhes traga conhecimento e conteúdo socioeducacional. Dessa maneira, segundo Ijuim (2001), deve-se encarar a produção do jornal escolar como uma das formas de contribuir para que educandos e educadores incorporem, mais que as técnicas jornalísticas, uma postura de observação, reflexão e expressão de mundo. Para isso, o jornal não pode ser encarado apenas como um instrumento didático, mas como um instrumento complexo, que amplie suas potencialidades para além dos recursos técnicos. Além da língua portuguesa Erros gramaticais e de sintaxe. Quando se trabalha com textos jornalísticos dentro da sala de aula, essa é a primeira coisa que se passa na cabeça dos educadores. Mas os veículos impressos fornecem outros tipos de conteúdo, que nem sempre são abordados pelos professores. Nessas situações, torna-se pertinente lembrar a importância dos temas transversais como um degrau para a transdisciplinaridade e para um novo olhar sobre esses jornais e revistas. Os temas transversais fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais e têm peculiaridades que lhes permitem uma abordagem diferenciada. Não são novas áreas de estudo, mas elementos que podem ser articulados e integrados a disciplinas já existentes. Dentre os temas transversais, podem-se apontar a ética, a pluralidade cultural, o meio ambiente, a saúde e a orientação sexual. Por serem temas complexos, eles não costumam ser estudados em uma disciplina específica, o que permite que sejam abordados de forma ainda mais ampla e completa. São assuntos que permeiam todos os meandros da sociedade e, justamente por isso, estão presentes com bastante freqüência dentro das páginas dos impressos. Esses temas, por fazerem parte do cotidiano da sociedade brasileira e mundial, também são fontes de reportagens, matérias, artigos e editoriais e garantem aos professores de variadas disciplinas pontos interessantes de discussão e trabalhos para serem elaborados pelos alunos. Principalmente se se considerar, nesse aspecto, que jornais e revistas são materiais para serem estudados não apenas nas disciplinas que envolvem a língua portuguesa, mas em outras disciplinas, garantindo a interdisciplinaridade, por serem esses veículos uma fonte de informação de diversas áreas do conhecimento. Essa visão múltipla sobre os textos noticiosos, bem como suas formas de trabalho, ajudaram educadores e educandos a se tornarem leitores mais críticos e atentos ao que acontece nas páginas desses veículos e ao redor deles. Isso porque a suposta objetividade do fazer jornalístico garante a cada impresso uma maneira diferente de observar e relatar um mesmo fato, e é pertinente que esses leitores percebam essas nuances para que saibam o quão manipuladora a mídia pode ser, quando quer. E, além de serem um material rico para ser trabalhado, os jornais e revistas podem ser elaborados pelos alunos. Ao pesquisarem diferentes assuntos, elaborarem e editarem seus próprios textos, eles desenvolvem a capacidade de perceber a dupla identidade que também permeia o cotidiano das redações: tornam-se leitores/escritores. É essa dupla identidade que garantirá ainda mais um olhar crítico sobre o que é veiculado pela mídia. Participando ativamente desse tipo de processo, eles não apenas aprendem a lidar com a interdisciplinaridade, como percebem estar produzindo algo que transcende um mero trabalho técnico, tornando-se algo de cunho cultural e educativo. Considerações finais Ocorre com o mundo jornalístico o mesmo que ocorria com a túnica tecida por Penélope. A fiel esposa de Ulisses tecia durante o dia e destecia à noite. É uma boa imagem para expressar a fugacidade que os requisitos de atualidade, novidade e interesse geral dão às notícias, como produtos informativos que são. É que a vitalidade noticiosa, no seu duplo sentido de ser e existir, por mais virtual, mediática e simbólica que possa ser, é fruto e obra do fluir heraclitiano da realidade social e humana. Fabricada por homens, a informação é também, de forma continuada, ritual e cíclica, recebida por homens imersos em relações e pertencentes a múltiplos universos socioculturais. (BARROS FILHO, 2001, p. 120) Esse apontamento destaca parte do que caracteriza a prática jornalística. Não apenas a que é feita por profissionais da área, mas também aquela elaborada pelos próprios estudantes. Assim, para compreender melhor os textos jornalísticos e, dessa forma, trabalhá-los de maneira mais produtiva em sala de aula, é necessário que se entenda a complexidade dos fatores que estão por trás desses meros amontoados de palavras. Professores e alunos precisam estar integrados com a prática jornalística para se tornarem leitores mais críticos, caso os jornais e revistas sejam apenas encarados como um material de estudo, e escritores mais bem-preparados, caso participem da produção de um veículo impresso. O Projeto Linha Direta, através da Revista Linha Direta, fornece inúmeros instrumentos para que os educadores percebam essas e outras necessidades do mercado educacional, uma vez que sua missão é “criar e desenvolver produtos, serviços e projetos educacionais em parceria com empresas e entidades representativas do ensino público e privado que contribuam para o fortalecimento da educação no país”.2 É preciso que se rompa com certos conceitos preestabelecidos para que haja uma análise mais eficiente do que hoje é veiculado pela mídia nas salas de aula. Não basta ficar na superfície do problema em questão. Faz-se necessário ir além da notícia, para que jornais e revistas sejam mais do que ferramentas de ensino. 1 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2004. 2 Texto institucional do Projeto Linha Direta. Disponível em http://www.linhadireta.com.br. Acesso em 11 de abril de 2006. 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Jornal escolar e suas contribuições para o desenvolvimento de atitudes. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, set. 2001, Campo Grande.[Anais eletrônicos]. Campo Grande – MS, 2001. CD-ROM. KOVACH, Bill e ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Geração Editorial, 2003. ORLANDI, Eni Pulcinelli. A linguagem e seu funcionamento: as formas de discurso. São Paulo: Brasiliense, 1983. PAILLET, Marc. Jornalismo – o quarto poder. São Paulo: Brasiliense, 1974. |