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Do giz-de-cera ao professor holográfico
Marcelo Freitas · Bacharel em Administração de Empresas e Ciências Contábeis pela PUC Minas, pós-graduado em Administração de Recursos Humanos pela Fundação João Pinheiro e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas; · diretor e consultor da Corporate Gestão Empresarial e coordenador do Movimento Escola Responsável; ex-diretor executivo da Rede Marista de escolas e obras sociais – UBEE – e da Fundação L’Hermitage; articulista e palestrante; · consultor do Projeto Linha Direta em Responsabilidade Social e Voluntariado, Gestão Educacional e Estratégica, Recursos Humanos e Marketing Educacional para instituições educacionais e do terceiro setor de todo o Brasil. Vivemos em um mundo de contradições. Na porta das empresas, centenas de pessoas formam filas em resposta ao anúncio de emprego. Do lado de dentro, um número significativo de postos de trabalho permanece desocupado, em virtude da falta de pessoal qualificado para preenchê-los. No segmento educacional, é cada vez maior o número de escolas particulares que iniciam suas operações a cada ano. Em contrapartida, a ociosidade das instalações é igualmente crescente, deixando vagas inúmeras carteiras nas salas de aula. Nas escolas, prega-se uma formação para a cidadania, mas na maioria delas não encontramos, sequer, uma rampa de acesso para portadores de deficiência física. Código de ética e práticas de responsabilidade social inseridos na sua gestão, nem pensar. O que será que está acontecendo? A questão fundamental é que esse mundo de contradições está em constante mutação. E, no segmento educacional, este fato, por si só, já é uma dessas contradições. Apesar de tantas mudanças e tantos avanços, a escola prima por preservar métodos e práticas que se reproduzem ao longo de séculos. A inovação não é uma premissa, justamente aqui, onde ela deveria brotar. Outros setores da economia e da sociedade, de um modo geral, funcionam como a locomotiva da evolução. E, neste trem, as instituições educacionais cumprem o papel de vagões. Para entender tudo isso, é importante avaliarmos o contexto em que funciona o empreendimento “escola”. Não se trata, aqui, de discutir novas correntes de formação, mas, sim, a forma como, mais precisamente, a escola e o “negócio” educação vêm sendo geridos. Trata-se de avaliar o modelo de gestão vigente, suas premissas, ameaças e oportunidades; analisar como as novas tecnologias e costumes impactam esse empreendimento e o que demandam, em termos de logística, insumos e recursos. Isto implica averiguar a arena competitiva do mercado educacional, a ofensiva de concorrentes e entrantes potenciais e o surgimento de novos serviços ou produtos substitutos. A arena competitiva A estabilidade econômica, deflagrada a partir da introdução do Plano Real, levou ao crescimento do poder de compra das classes C e D, principalmente. Para esse grupo de consumidores, isso representou o acesso a produtos e serviços até então inviáveis. Para as empresas, foi a oportunidade de lançar novas linhas de produtos direcionados para esses clientes. Em todas essas iniciativas, o componente custo sempre foi uma preocupação, uma vez que os preços desses produtos deveriam ser compatíveis com esse novo nicho de mercado. E essa mudança acabou contagiando também a classe média. Esse movimento, cuja ênfase se deu na década de 90, somado ao processo de desregulamentação do segmento educacional e ao lançamento de políticas públicas mais modernas por parte do governo federal, fez com que se ampliasse o acesso às escolas, tanto públicas quanto particulares, elevando o número de alunos matriculados. Ao mesmo tempo, projetos educacionais elaborados por organizações da sociedade civil e financiados com recursos da iniciativa privada começaram a ganhar espaço, em decorrência do surgimento da gestão socialmente responsável na pauta das empresas. Aparece então mais um agente na arena educacional: as ONG’s. Embora ainda sem o mesmo peso das escolas tradicionais, essas instituições, geridas com profissionalismo e sustentadas por um novo modelo de negócios, logo começam a dividir uma fatia de mercado antes ocupada por instituições públicas ou privadas. O acirramento da concorrência, então, acarreta duas necessidades por parte das escolas tradicionais: a redução dos seus custos operacionais e a diferenciação em relação aos serviços prestados. Vem daí a primeira grande oportunidade de se instituírem inovações no segmento. Para tanto, uma avaliação do público-alvo merece ser aprofundada. A família ou o mosaico familiar Para entender a introdução de novas tecnologias e conceitos de gestão, é necessário perceber que o conceito de família, hoje, é muito diferente daquele no qual se baseia o modelo de negócios da escola tradicional. Hoje, existe uma nova configuração, em função do crescimento dos casos de divórcio e da inserção da mulher no mercado de trabalho. A mudança desta estrutura familiar traz como conseqüência a necessidade de introdução de novos processos e tecnologias que facilitem o dia-a-dia das pessoas. O tempo é um recurso escasso. Os pais já não podem, por exemplo, comparecer a reuniões em qualquer horário. Ao mesmo tempo, sentem a necessidade de receber um volume maior de informações num menor espaço de tempo. Nesse aspecto, porém, a maioria das escolas insiste em não utilizar recursos como a internet para disponibilizar serviços aos pais e alunos e em não lançar mão de alternativas mais arrojadas, como as disponibilizadas pela telefonia celular. Os “torpedos” seriam um bom canal para convocar reuniões ou fornecer informações relativas à vida escolar dos alunos. O novo homem O que antes era prerrogativa da mãe, hoje pode também estar nas mãos do pai. E como é esse novo homem? Muito mais sensível, vaidoso e capaz de externar suas emoções com naturalidade. Esse novo homem é também mais dedicado aos filhos (cresceu, nos últimos cinco anos, de 5% para 25% o número de pais que reivindicam a guarda dos filhos, conforme estatísticas do Registro Civil em 2001 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Tudo isso reforça a necessidade de as escolas cuidarem mais da sua “embalagem” e de outros atributos de seus produtos. Melhorar a apresentação das peças de comunicação, tratando-as de maneira profissional; cuidar com mais esmero do visual da escola; criar espaços de convivência e aumentar a segurança são alguns dos pontos a serem levados em conta pelos gestores educacionais. A mulher moderna O poder de decisão no momento da compra dos serviços educacionais ainda pertence, em boa dose, à mulher. Só que ela é, hoje, muito diferente daquele estereótipo no qual se baseia a política de relacionamento da maioria das escolas. Ela já constitui 48% da força de trabalho, planeja ter menos filhos e tem seu nível de escolaridade em ascensão, em relação aos homens. Mais esclarecida, independente e, em muitos casos, separada, reforça a necessidade de a escola rever práticas de gestão e relacionamento até aqui vigentes. O poder do jovem Inovar pressupõe compreender a dinâmica dos processos de escolha e de decisão. Por isso mesmo, a maioria das escolas deixa a desejar nesse quesito, uma vez que seus fundamentos de gestão se apóiam em premissas seculares. O jovem de hoje não é o mesmo do século passado... Altamente plugado, seja no celular, pager ou computador, o jovem de hoje é uma verdadeira central de processamento de informações. Capazes de trabalhar em várias atividades simultaneamente, a criança e o adolescente estão expostos, na maior parte do tempo, aos apelos visuais, olfativos e sonoros das mais variadas mídias. Cultivam o que podemos chamar de individualidade comunitária. Sozinhos diante do seu computador, interagem com uma infinidade de outros jovens mundo afora através da internet. Torpedos telefônicos são trocados a cada instante. Milhões de downloads de jogos em rede são feitos a cada hora por essa tribo. Paradoxalmente, confrontados com a irreverência própria da juventude, pesquisas recentes do Instituto Cidadania dão conta de que apenas cerca de 1% dos jovens entre 15 e 24 anos são ateus, o que pressupõe o culto aos valores fundamentais de convivência. Discutem temas relevantes, como aborto, violência, educação e emprego. Na classe média, por sua vez, um grande contingente já possui celular, cartões de crédito e contas em banco antes mesmo de completar a maioridade. A conclusão é que estamos lidando com uma geração de cidadãos que cresceram num ambiente global, inundado por tecnologias jamais imaginadas e conectados entre si pelas mais diversas formas. E, para confirmar esse mundo de contradições, a estrondosa maioria das escolas continua mantendo seu pilar central na transferência de conteúdos via professor-aluno, apoiada nos recursos do giz-de-cera e do quadro-negro. Por que não trabalhar a aprendizagem de forma mais dinâmica e interativa? No processo pedagógico, a utilização de jogos de computador em rede, quiz pelo celular e discussão de temas educativos via grupos ou blogs seria muito mais pertinente e apreciada pelos alunos. No âmbito da gestão, os processos continuam morosos, fazendo com que um histórico escolar demore um mês para chegar às mãos do interessado. Enquanto isso, em qualquer posto de gasolina, um cidadão comum paga a fatura acessando sua conta através de um cartão de débito, que imediatamente transfere o dinheiro para o fornecedor de combustível. Simples... banal. Além de plugado, esse novo consumidor começa a ter o seu perfil caracterizado por um novo traço: a “cidadania”. A constatação de que produtos ou serviços que carreguem uma preocupação social e ambiental têm crescente valorização é uma realidade. Preocupar-se com a diversidade, a igualdade de raça e gênero e o tratamento das minorias deveria ser uma regra no interior das escolas. Entretanto, casos em que essas questões fazem parte das políticas das instituições educacionais são raríssimos. De onde vem e por onde entra o concorrente? Por tudo isso é que, cada vez mais, as escolas tradicionais oferecem um flanco vulnerável à entrada de novos produtos e concorrentes. Partindo de segmentos diferentes e, portanto, suportado por outros paradigmas, o número de novos agentes na arena educacional cresce a cada dia. Da inadequação das instalações às facilidades proporcionadas pela evolução dos meios de comunicação, empresas de consultoria, entretenimento e tecnologia da informação estão ganhando espaço no segmento da educação. A expansão do Ensino a Distância – EaD –, por exemplo, possibilitou trazer para o mercado educacional um contingente de consumidores até então marginalizados, como os portadores de deficiência física e os trabalhadores sem tempo para freqüentar uma escola tradicional. A utilização da videoconferência, por sua vez, permitiu a troca de experiências e técnicas entre profissionais, alunos e professores, em tempo real e numa dimensão geográfica das mais amplas. As universidades corporativas já são uma realidade. A holografia, outro avanço tecnológico já adotado por indústrias como a Embraer para o desenvolvimento dos projetos de seus aviões, poderia ser amplamente utilizada pelas instituições educacionais para o aprendizado de conceitos que envolvam imagens tridimensionais, como a construção civil, a arquitetura, a medicina e outras. Tecnologias como internet sem fio, bluetooth, wap, pagers e as redes, formadas por comunidades das mais diferentes partes do planeta, proporcionam uma oportunidade ímpar de inovação. Na esteira dessa onda, novas profissões vão surgindo no próprio segmento educacional. Eis, por exemplo, algumas delas: Arquiteto escolar – profissional responsável por estabelecer, em síntese, o melhor mix entre o espaço físico e o virtual, de maneira a otimizar os processos de ensino-aprendizagem. Além dos aspectos clássicos da arquitetura (cor, layout, luminosidade, funcionalidade, circulação de ar etc.), este novo profissional deve dispor de sólidos conhecimentos de tecnologia da informação e pedagogia. Precisa conhecer os equipamentos multimídia que poderão ser utilizados pelos educadores, seu funcionamento, bem como a utilização que deles se fará em termos pedagógicos. Designer instrucional – sua principal função é a de desenhar os processos educacionais e os recursos instrucionais mais eficazes para que o aluno tenha o maior aproveitamento possível. Nesse sentido, é fundamental que conheça a pedagogia com profundidade, seja um grande conhecedor das mídias existentes e de suas potencialidades educacionais. Instrumentador educacional – atua no sentido de aparelhar o professor com os recursos multimídia mais eficazes, tanto em relação aos equipamentos quanto aos melhores softwares para alcançar os objetivos de aprendizagem almejados. Somado ao conhecimento profundo em termos de softwares educativos disponíveis no mercado, esse profissional precisa ter um grande conhecimento dos conteúdos programáticos que serão repassados aos alunos. Difere do designer instrucional por ser mais operacional que aquele. Conhecimentos de informática e pedagogia, além de uma grande capacidade de análise, são alguns dos pré-requisitos exigidos deste profissional. Especialista em logística educacional – as funções deste profissional são bastante abrangentes. A ele cabe coordenar o movimento, transporte, abastecimento e arquivamento de todo o material necessário à execução do processo de ensino-aprendizagem. Além disso, cabe-lhe viabilizar, da melhor forma possível, a circulação dos documentos e materiais necessários para a execução das atividades educacionais programadas, bem como administrar os espaços físicos da escola utilizados para o aprendizado (secretaria, biblioteca, brinquedoteca, audiovisual, teatro, quadras, laboratórios etc.). Conhecimentos de administração geral, legislação educacional, gestão de materiais e logística são algumas das exigências que se fazem a este novo profissional. Entender, portanto, essa nova dinâmica da arena competitiva e de seus protagonistas é um fator decisivo no processo de gestão educacional1. Fato é que, para criar essa nova escola, baseada em premissas mais atuais, é importante dedicar energia ao provimento da infra-estrutura necessária ao seu funcionamento. Além de preparar profissionais com perfil mais compatível com o modelo, desenvolver novas relações com outros segmentos é primordial. Alianças estratégicas com empresas de tecnologia, entretenimento e comunicação formarão o ponto de convergência da educação deste século e os novos pilares para uma escola diferenciada. Em outra instância, o provimento de recursos não pode mais recair sobre uma única via: a das mensalidades, no caso das escolas particulares, ou das verbas públicas, no das instituições mantidas pelo Estado. É importante que, a exemplo dos projetos alavancados pelas ONG’s, a sustentabilidade dos centros educacionais seja resultado de um mix criativo de receitas. E elas dependerão, cada vez mais, da oferta de novos serviços de valor agregado e de um marketing de posicionamento bem delineado. Instaurar uma nova visão do empreendimento escola, em que a segmentação dos clientes possibilite a oferta de serviços variados, é uma porta de entrada para a introdução de inovações. O modelo de negócios educacionais do futuro deve contemplar, por exemplo, a possibilidade da venda de imagens das aulas, no sistema pay-per-view, tanto para os pais ou responsáveis como para alunos impossibilitados de comparecerem pessoalmente. Ressaltem-se a chegada da TV digital e as mudanças que ela trará. Deve também permitir a comercialização de aulas em DVD; acesso a informações e conteúdos on-line; jogos didáticos pelo celular; assistência personalizada dos professores, via internet; emissão de documentação e extratos via web e tudo o que a tecnologia permitir. Até mesmo a presença de um professor holográfico... por que não? Finalmente, não se pode esquecer o compromisso com a sociedade, embutido nas premissas de uma gestão social e cidadã. A presença de um código de ética é um bom ponto de partida. Políticas afirmativas, considerando o tratamento da diversidade, os critérios de crescimento profissional e a transparência nas relações interpessoais e institucionais compõem o leque de requisitos mínimos para a gestão dessa inovadora instituição. A integração escola-comunidade é uma peça-chave para a estratégia desse novo modelo de negócios, assim como o é a definição de parcerias. É nesse sentido que ela deve estabelecer uma relação próxima à comunidade do entorno, fornecendo-lhe acesso aos seus espaços culturais e de lazer. Muitos desses espaços, contudo, podem também se transformar em fontes geradoras de receita, como, por exemplo, os auditórios, laboratórios de informática e bibliotecas. Nessa perspectiva, tais espaços podem assumir novos papéis, como salas de cinema, cibercafés e locadoras de livros, respectivamente. Têm-se, assim, as bases de um novo modelo de negócios para as escolas. Um modelo que permite que brotem das suas entranhas cidadãos conscientes, aptos a exercerem na sociedade o papel que deles é esperado. Com processos desenhados a partir de novas premissas, considerando na sua estratégia de atuação o atendimento das expectativas de todos os seus stakeholders, a escola se permite o exercício da reconstrução. Um desafio imposto pelos novos e contraditórios tempos aos gestores educacionais, educadores e a todos aqueles que, de alguma forma, têm compromisso com o amanhã. É como se, sentados na primeira fila de carteiras dessa grande sala de aula global, víssemos o holograma de Bernard Shaw2 a nos dizer: “Você vê as coisas que existem e pergunta: por quê? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto: por que não?” 1 Aqui, é importante destacar a relevância do papel informativo desempenhado pelo Projeto Linha Direta. Através de suas inúmeras ações, o Projeto tem levado aos gestores educacionais, de forma objetiva, conceitos inovadores e conteúdos significativos para uma reflexão acerca da Gestão Educacional. É, sem dúvida, uma grande contribuição ao universo educacional brasileiro. 2 George Bernard Shaw (1856 – 1950), polemista e dramaturgo, nasceu em Dublin e iniciou sua carreira como crítico de artes. Exercitou a ficção e o ensaio, mostrando o poder de fogo da ironia cortante e a visão do mundo peculiar em que vivia. Consagrouse no teatro, deixando clássicos como A profissão da Sra. Warren (1902) e Pigmalião (1913), esta última, sua peça mais popular, e que, em 1964, deu origem ao filme My Fair Lady. O autor foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1925. |