A leitura e o professor
Gabriel Perissé

· Mestre em Literatura Brasileira (USP) e doutor em Educação (USP);
· pesquisador e professor do Mestrado em Educação do Centro Universitário Nove de Julho (SP);
· autor de vários livros, entre os quais O professor do futuro (Ed. Thex) e Elogio da leitura (Ed. Manole).

Ensinar a ler é tarefa docente das mais importantes. Ler os livros, ler as pessoas, ler o mundo. Leitura plena, crítica, interpretativa. Leitura das entrelinhas.

Todos os países têm procurado soluções para fazer da criança e do jovem melhores leitores. O ministério da Educação da França, por exemplo, divulgou, faz alguns anos, o que seria um novo programa escolar para a escola primária. Conforme palavras do então ministro Jack Lang (ver http://www.education.gouv.fr/ discours/2000/primaire.htm), a intenção era garantir o desenvolvimento harmonioso da criança, levando em consideração sua sensibilidade, inteligência racional e consciência cidadã, além de suas habilidades práticas. Tal programa pretendia ainda garantir à criança um arsenal de saberes básicos e suficientemente sólidos, a fim de torná-la capaz de encarar os desafios do futuro.

A “novidade” mais significativa desse programa para melhorar o ensino fundamental era muito simples: ver no idioma francês a discipline-phare, o farol, a disciplina orientadora entre todas. Ficava estabelecido que, nas classes, houvesse pelo menos duas horas diárias dedicadas à leitura em voz alta de textos, contos, poemas, e que a garotada escrevesse e falasse mais.

Todas as disciplinas eram vistas, assim, como formas de estimular o aprendizado do idioma, tema transversal por excelência. Tudo muito simples. Simples porque vai à essência do problema complexo, oferecendo solução factível, embora exigente. Simples: a leitura é determinante. “Quem não lê, não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”, dizia Paulo Francis, com a sua falta de papas na língua.

De nada vale um vestibulando querer dominar mil e um truques para passar, se não aprender a interpretar corretamente o enunciado das questões a que deverá responder. Pouco adianta uma pessoa conseguir instalar um software, se não souber discutir sobre a importância e as limitações da informática na vida cotidiana. Um empresário pode ser muito criativo e ousado, mas sua criatividade e ousadia morrerão com ele se não souber transmiti-la.

Em suma, uma pessoa sem leitura, alheia à literatura do seu país, sem o conhecimento iluminador do idioma, é um eunuco do espírito, é estéril.

Não é raro encontrar, em redações para vestibulares ou outros tipos de exame, frases que revelam estarrecedora confusão mental. Numa, escrevia o seu autor: “por isso eu luto para atingir os meus obstáculos”. O que comprova que ele há muito tempo perdera de vista seus verdadeiros objetivos! Trecho de outra redação: “O que
é de interesse de todos nem sempre interessa a ninguém”. E o pior é que ele tinha razão.

E o que é de interesse de todos? O que de fato interessa a todos nós, no mais profundo de nosso ser, e exige dos professores coerência máxima em termos didáticos? O que é de interesse de todos, e qualquer um pode descobrir ser do interesse de todos, uma vez que bastaria ler com cuidado o que os mestres da educação nos
legaram, ler os textos-chave da melhor filosofia da educação?

Leitura e linguagem docente

Como diziam os antigos, “nemo dat quod non habet” – ninguém dá aquilo que não tem. O professor, a professora, para ensinar, necessitam estudar. Um estudo que evite os livros encharcados de pedagogês, esse jargão grudento, com poder quase infinito de complicar as coisas, como se a situação da educação no Brasil e no mundo já não estivesse bastante complicada. Um estudo que evite, igualmente, aqueles livros de “auto-ajuda educacional”, cujo sentimentalismo e superficialidade simplificam demais os nossos problemas, e perdem a oportunidade de ajudar efetivamente...

A linguagem docente não pode ser apenas uma linguagem decente. Isso já seria muito, mas ainda é pouco... O professor-leitor se revela na linguagem. E nós a identificamos assim, criativa – mesmo que se trate de ensinar matemática, química, física, ou de falar sobre quaisquer outras matérias que os racionalismos reducionistas excluem do âmbito artístico –, por ser uma linguagem que comove, toca, provoca, às vezes choca, mas sempre leva o ouvinte a se interiorizar, a experimentar emoções fortes, decisivas, talvez contraditórias, capazes de despertar-nos integralmente para uma visão mais lúcida da realidade.

A magia inerente à linguagem eficaz, como dizia o poeta e ensaísta Herbert Read, nasce do esforço prazeroso para que se instaure uma harmonia entre nós e o mundo. É a linguagem reveladora, a linguagem da descoberta. Essa linguagem que nos sussurra, enigmática, como numa canção presa aos nossos neurônios: “não se perturbe nem fique à vontade”. Uma linguagem que supõe “luta pela expressão”, título forte de um livro de filosofia da literatura que alcançou relativo sucesso nos anos 40 do século passado, da autoria do professor Fidelino Figueiredo.

Luta pela expressão. O livro com este título foi escrito em plena Guerra Mundial, tempo de dores, de angústias, e representou também a luta do autor para esquecer os horrores e dissabores da época, realizando no papel uma harmonia ausente nos fatos históricos. Como observou outro professor, Antônio Soares Amora, no prefácio à terceira edição, nos anos 70, o estilo de Fidelino “é cativante, pela clareza na exposição das idéias e pela expressividade das comparações e das metáforas”.

Do professor, esperamos linguagem cativante, expressiva, repleta de metáforas, de vitalidade, de clareza. Cada professor terá a sua expressividade, seu repertório de metáforas, sua maneira pessoal de atingir a clareza, mas estas são precisamente as características que esperamos de uma linguagem educadora.

O pensamento humano é verbal, e cada ser pensante, em particular o professor, cujo papel, entre outros, é pensar ao vivo, diante da platéia dos alunos, tem o dever de eleger palavras suas, de compor expressões que iluminem suas idéias. As preferências (ou obsessões?) verbais de um professor são a sua marca registrada, o
tempero de seu conhecimento, por mais árida que seja a matéria a ensinar.

Adquirir estilo ao falar (e escrever) depende da leitura variada e contínua. Ler constantemente, de modo reflexivo, conduz o professor à maturidade lingüística, que por sua vez permite que ele seja um criador e recriador das palavras.

Quando Martin Heidegger forjava um sentido próprio, existencialista, para a palavra “autenticidade”, imprimia em seu discurso de professor a marca de sua visão pessoal. A mesma coisa podemos dizer da expressão “Eu sou eu e minha circunstância”, criada pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset. O élan vital, o impulso vital de que falava Henri Bergson tornou bergsonianas essas duas palavras, assim unidas: impulso vital. E quando o escritor mexicano Octavio Paz se referia a uma “imensa minoria” de leitores, conseguia, com este fino paradoxo, vencer a limitação da linguagem prosaica e captar uma sutileza do mundo dos livros. E, quando lemos num fragmento de Heráclito que “o caminho que sobe é o mesmo que desce”, nesta simplicidade aprendemos como apreender e como fazer perdurar uma intuição ao mesmo tempo complexa e genial, pois o aparentemente óbvio neste subir e neste descer demonstra o não tão óbvio: as realidades do mundo são passíveis de nos elevar ou nos fazer despencar, dependendo de nosso livre caminhar no caminho.

Enfim, a linguagem, com sua maravilhosa ductilidade, constitui matéria-prima primordial do educador. Na linguagem, podemos ganhar ou perder. Ganhar, se nos tornarmos poetas do prosaico. Perder, se abusarmos da linguagem, se nela depositarmos o amargor ou o ressentimento, como naquela fala infeliz que um professor, vítima da síndrome das “pérolas-aos-porcos”, soltou em momento de raivosa sinceridade com seus alunos, numa escola de periferia: “Se eu, na minha época de estudante, tivesse tido um professor como vocês têm, hoje não estaria dando aula para vocês.”

Leitura e respeito pela palavra

O professor respeita a palavra porque respeita seus alunos. E respeita também aquilo que precisa ensinar. Tríplice respeito. O professor, empregando palavras apropriadas, olhando para o aluno real, atento ao aluno em suas reais condições, dará a este aluno acesso a uma ciência, a um conjunto de idéias e de saberes, tudo isso em clima bem-humorado, pois o riso em nada prejudica o siso...

O respeito pelas palavras baseia-se num pressuposto ontológico: as palavras podem ensinar por si mesmas. Nas palavras, o saber acumulado dos séculos se esconde, ou melhor, fica ali reservado, alojado, à espera de quem o queira saborear. Neste sentido, qualquer pessoa pode ensinar, se repetir oportunamente as palavras ensinantes. Vejamos o caso dos provérbios, frases que trazem em seu bojo antigas verdades. Se o analfabeto repete um desses provérbios, e eu o ouço com atenção, posso aprender algo decisivo para a minha vida. Shakespeare chegou a dizer que curava suas aflições com provérbios!

O provérbio italiano “La sorte è come uno se la fa” ensina o que a humanidade, em muitos lugares e diferentes momentos da história, aprendeu a duras penas: que cada pessoa carrega sobre seus ombros a responsabilidade de decidir sobre sua própria vida, decisões que influenciam e determinam seu destino. Ou, como dizia o grande enxadrista cubano Capablanca, “a good player is always lucky” – um bom jogador sempre tem sorte –, pois a sua sorte, o bom destino de seu jogo depende de cada lance bem-feito no tabuleiro da vida.

Gorki, relatando sua trajetória de escritor, fez um elogio inesquecível aos provérbios que, com exemplar precisão, resumem “toda a experiência vital social e histórica do povo trabalhador”. Para um escritor (e estendo essa recomendação aos professores), “é imperativo estudar este material”, pois nele aprendemos o essencial sobre a existência.

Não precisamos ir à escola para ouvir provérbios, para aprender com a imensa sabedoria acumulada em milhões de frases e aforismos. Bastaria que sobre eles meditássemos e absorvêssemos os ensinamentos que gente simples e sábia depreendeu do seu contato com a vida vivida. Mas um outro pensamento também é possível. Se as famílias perdem suas raízes, se o contato com a sabedoria antiga se enfraquece, definha e se extingue, cabe justamente à escola e ao professor relembrarem essas verdades que a todos pertencem... e que se refugiaram na letra escrita.

Sem sermos os únicos provedores do saber e do conhecimento nessa terra, nós, professores, vivendo profissionalmente de sermos professores, temos, por outro lado, a responsabilidade intransferível de iniciar e orientar as pessoas no mundo do saber, do saber acumulado por uma civilização... ou prestes a ser perdido por uma civilização incapaz de valorizar o bastante este saber que nos aperfeiçoa como seres humanos, e que, trabalhando contra si mesma, dá prioridade ao ensinamento de outras “coisas”, com a única intenção de tornar nossos alunos matéria viva para o mercado de trabalho.

Porque lutamos para ser profissionais conscientes da docência, nós, professores, queremos adquirir um grau mais exigente de conhecimentos, e queremos crescer como profissionais da palavra. E, para atingir essa meta, não há melhor caminho além da leitura, que nos concede a intimidade com a linguagem.

O professor-leitor, para ser coerente com uma pedagogia atenta à realidade real, está atento à contínua criação de palavras, e com ela aprende a enriquecer suas aulas. Atento ao que lê nos jornais e ouve na televisão, viu nascerem a “biodança”, o “chocólatra”, a sigla “TPM”, a “deprê” (depressão), a “lipo” (lipoaspiração), o “aborrescente” (adolescente + aborrecido), o “pãe”, o “portunhol”, o “ecoterrorismo”, o “frigobar”, o “mortorista”, o “namorido”. E não se sentiu nem se sentirá surpreendido com essas novidades. Ou melhor, gosta de surpreender-se com o aparecimento de novas palavras, reduções, casamentos espúrios entre palavras antes autônomas, neologismos que pretendem dar conta de percepções novas de realidades antigas ou inéditas.

As influências estrangeiras, notadamente do inglês, todos esses anglicanismos – best-seller, check-up, delivery, feedback, franchising, hacker, kit, lobby, on-line, piercing, rush, self-service, clean, cool, cult, diet, light etc. – também lhe parecem ser, apesar da revoltante dominação econômica e tecnológica que tal invasão lingüística representa, uma oportunidade a mais de comunicação, e de certo modo uma expansão vocabular. Afinal, são palavras que mais cedo ou mais tarde se incorporam (várias daquelas citadas já se incorporaram plenamente) à linguagem dos brasileiros, como, de resto, ocorreu tantas vezes no passado. Para citar um único exemplo, era delito grave empregar o galicismo “envelope”, no começo do século passado, em lugar de “sobrecarta” ou “sobrescrito”... Hoje, alguém, em sã consciência, se confessaria desse pecado?

O professor-leitor ouve, entende e passa a utilizar palavras que receberam novos sentidos em contextos determinados. Usa o “fritar” tal como se entende nos âmbitos político e empresarial, indicando-se que alguém sofre pressão e cairá em desgraça; usa o “pepino” (problema), o “tricotar” (conversar, fofocar) etc. E, mais do que apenas ouvir e reproduzir, deve este professor criativo montar frases curiosas (tal como o faz Millôr Fernandes), como o palíndromo “a grama é amarga”, e criar palavras inusitadas, ou inusitadas razões para velhas palavras, como este mesmo humorista tem feito ao longo de décadas. Ele inventou a “cartomente” (adivinha que nunca adivinha de verdade), reinterpretou “presidiário” como aquele indivíduo preso todos os dias, e deduziu originais origens etimológicas: “comichão”, aquele que devora terra; “compenetrar”, entrar a pé; “demover”, olhar o diabo; “comover”, maneira de olhar... Foi também Millôr Fernandes quem, num texto sobre a coincidência de pessoas famosas terem os dois nomes com uma mesma letra inicial – Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Charles Chaplin, Sílvio Santos, Murilo Mendes, Gilberto Gil... –, pensou na possibilidade de mudar seu nome ou para Millôr Mernandes, ou para Fillôr Fernandes.

Não se trata de inventar por inventar, mas de testar a elasticidade das palavras, o grau de resistência do idioma, seu alcance, sua textura, sua consistência, suas propriedades físicas e químicas, ser alquimista do verbo, como mandava e mandava ver Rimbaud. E como se vê nos poetas. No poeta e compositor Chico César, quando canta, irônico, “deve ser legal ser negão no Senegal”, “respeitem meus cabelos, brancos”. Como se vê nos textos do poeta Manoel de Barros (1997), quando escreve que “Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e achar o que não procurava”. Porque assim acontece realmente. Achamos na linguagem o que não procuramos, mas, condição sine qua non, temos de ficar de plantão horas e horas, escarafunchando, e cabe explicar a imagem: escarafunchar vem de um possível termo latino medieval, o verbo scariphunculare, que tem a ver com scariphus, instrumento cirúrgico para escarificar o corpo, abrir. Trata-se de um antigo bisturi.

Escarafunchar é abrir buracos no corpo da gramática, do dicionário, brincar perigosamente com as entranhas das palavras. Escarafunchar é ler em profundidade.

Palavras vivas

Embora o lingüista alemão Edward Sapir nos alertasse para o fato de que podemos pensar e exprimir nossos pensamentos mediante símbolos não-verbais, como os símbolos matemáticos, os gestos, as notações musicais, as cores, as linhas etc., afirmava também que as palavras continuam sendo os símbolos mais empregados, os nossos “instrumentos preciosos na intercomunicação”. E, para lembrar um verso de Jorge Mautner que Gilberto Gil canta, “toda a fauna-flora grita de amor”; mas até esse grito, para que possamos ouvi-lo bem, depende das palavras de Mautner e Gil.

Com a linguagem enriquecida de forma e conteúdo, o professor envolve seus alunos no lúdico da vida. Leva-os a experimentar o prazer da linguagem livre, mostrando-lhes que essa linguagem está à disposição na poesia, no jogo teatral, nos livros...

A linguagem humana é comunicação. E a verdadeira comunicação não é a mera transmissão de conteúdos, mesmo quando é preciso transmitir os conteúdos. Quando uma pessoa se comunica, dá-se um acontecimento criador, que ao mesmo tempo recria e leva à auto-realização os seres que se comunicam. A linguagem instala o ser humano na realidade, instalação necessária para seu equilíbrio, sua realização, seu amadurecimento como pessoa.

O homem é, na medida em que atua, não apenas Homo sapiens e Homo ludens, mas também, e sobretudo, Homo loquens. Somos humanos na medida em que somos “seres de caráter verbal” e, pela linguagem, temos acesso à realidade pessoal e ao nosso entorno. Mais ainda, somos seres humanos na medida em que podemos fazer relatos biográficos, desenhar na própria mente palavras que, por sua vez, desenham realidades futuras em direção das quais nos lançamos em busca da nossa realização.

É indispensável ter bem claro que as idéias que uma palavra exprime não estão fora desta palavra. As palavras realmente dizem coisas, e o dizem, por assim dizer... em sua própria pele, em carne viva. As palavras vivas, sangrantes, fazem do nosso pensamento uma “coisa” animada, nutritiva. O professor tem como tarefa intransferível tornar o conhecimento visível, palpável. Daí a sua responsabilidade como leitor.

Referências bibliográficas

BARROS, Manoel de. Livro das ignorãças. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.
BERGSON, Henri. A evolução criadora. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
FIGUEIREDO, Fidelino. A luta pela expressão. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1973.
GORKI, Máximo. Como aprendi a escrever. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1998.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1993.
ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
SAPIR, Edward. A linguagem: introdução ao estudo da fala. São Paulo: Perspectiva, 1980.
http://www.education.gouv.fr/discours/2000/primaire.htm. Acesso em 16/5/2006.