Conto da sustentabilidade
Marcus Vinícius Santos Ferreira

· Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais;
· diretor da Asas Produções, desde 1986;
· coordenador geral do Projeto Circuito Ambiental, desde 1998, e do Projeto Plantando o Futuro, desde 2001;
· ex-diretor superintendente da Cosmotec Empreendimentos S/A;
· coordenador de Comunicação e Mobilização Social do Fórum Estadual Lixo e Cidadania do Estado de Minas Gerais;
· coordenador geral do Programa Fazer Acontecer, desde 2003.

Aquela manifestação coletiva em uníssono do final de reunião ficara na sua memória nos últimos dois meses. A caminho da sua escola, o diretor se perguntava: “Será que novamente teremos aquele ‘barulhinho bom’?” Era dia da Plenária dos Projetos em todas as salas de aula. Hoje, durante parte da manhã, ele acompanhará
a reunião da sala 7.

– Quem é o senhor? – quis saber um dos alunos, ainda na porta da sala.

– Eu sou o Márcio Cipriano, diretor da escola.

– Ah, é? Muito prazer.

A professora de matemática, Marta, ao lado do Afonso, de português, no meio da roda formada com os alunos, provoca o debate:

– Bom dia a todos. Podemos começar? Por que estamos aqui hoje?

Essa era a senha para que os grupos de pesquisa formados no bimestre respondessem quase que ao mesmo tempo: “... para aprender a conhecer...” e iniciassem as apresentações das perguntas, ainda sem respostas, de cada grupo. Esse pinga-fogo antecedia o trabalho de redação dos relatórios.

– Equipe da Transparência, a bola está com vocês, propôs Marta.

– Galera – disse Ana Paula para os seus colegas de roda – foi muito engraçada a cara que o meu pai fez ao ver o balancete da escola. Antes de ajudar o meu grupo a entender os números, ele perguntou como tínhamos conseguido aqueles papéis. “Uma escola que mostra balancete para seus alunos!” – exclamou ele.

– É... Mas uma dúvida ficou no ar, lembrou Thiago. Como é que a escola vai arrumar dinheiro para equipar o auditório? Vocês se lembram do orçamento?

O professor Afonso, dirigindo-se ao time da Ética, responsável pela entrevista com um dirigente de uma empresa de cosméticos, provocou:

– E aí, descobriram como foi formada a empresa?

Alexandre aceitou o desafio:

– Professor, segundo o Flávio Montes, diretor de operações, eles começaram há 37 anos, com um pequeno laboratório, em São Paulo, e hoje possuem quase meio milhão de vendedoras de porta em porta, filiais em cinco países, dezenas de prêmios de responsabilidade social...

– O cara ficou meio engasgado quando eu perguntei se as vendedoras deles possuem carteira assinada, completou Patrícia. Perguntei também se a empresa seria viável se tivesse que arcar com os encargos trabalhistas. Ele ficou de pesquisar e responder por e-mail.

Mateus, integrante do grupo Consumo Consciente, interrompendo Patrícia, contou:

– Sem graça ficou o gerente de marketing do shopping que visitamos ontem, diante do comentário da Roberta a respeito da campanha de liquidação do início do ano.

– Bem-feito! – exclamou Roberta. Colocar na rua uma propaganda daquelas! Compre e fique zen! Só se for “zen dinheiro” – eu disse a ele. Esse tipo de abordagem deveria ser proibido.

– É... Mas o shopping estava lotado – retrucou Mateus.

– Muito bem. Podemos começar o desenvolvimento dos relatórios? – perguntou Marta.

– Espera um pouco, professora – interrompeu Bernardo, do grupo de Inovação Tecnológica. Eu gostaria de saber se alguém aqui ouviu falar de capitalismo natural. É que, ao pesquisarmos sobre inovação, descobrimos esse novo conceito, e gostaríamos de ajuda.

Como ninguém se pronunciou, Marta, que também nunca tinha ouvido falar do tema, incentivou:

– Vamos lá, Bernardo, conta pra gente o que é isso...

– Professora, respondeu Bernardo, nosso grupo precisa pesquisar mais... Ao que parece, é uma mudança interessante no jeito de fazer negócios: entre outras coisas, ao invés de a empresa buscar vender seus produtos, ela trabalha para alugá-los aos seus clientes.

– Ué! – Roberta se espantou. Vão acabar com os shoppings?

Ainda faltava um bom tempo para o final daquela manhã de debates; contudo, o diretor parecia ter uma certeza: novamente o “barulhinho bom” de protesto para que o encontro não terminasse seria ouvido. Por ele, não sairia dali, embora já passasse das 10h e tivesse várias providências para tomar, inclusive assistir às palestras do XII Encontro Estadual de Gestão, à tardinha. Pelo “agora, não” repetidas vezes, só às 13h ele conseguiu sair da sala, o que ocorreu com um misto de felicidade e esperança.

Já no Encontro, a repetição da pergunta “Qual o sentido da vida? Qual o sentido de sua vida?”, feita pelo palestrante, acordou Cipriano. Era um cochilo muito confortável, mas a pergunta merecia o despertamento.

O palestrante insistia:

– Que pessoas queremos formar? Aquelas que almejam obter no mercado a satisfação de suas angústias ou as que vivem para aprender que somos seres incompletos e em busca do, ainda, não-feito?

Sem perder o sorriso e falando pausadamente, mais questionamentos do orador:

– Estamos gerando seres humanos que se orientam pelo umbigo ou que incluem o outro, o diverso, o diferente nas suas emoções e gestos?

O auditório parecia incomodado. Como responder a essas perguntas com a rotina, a pressão diária, os compromissos de ontem que não foram atendidos e que insistem em “arranhar os calcanhares”? Apesar de certo desconforto na vizinhança, o diretor se sentia bem. A primeira pergunta era fácil para um educador, pensava ele. Falou consigo mesmo, baixinho:

– Imagina... Eu formo pessoas, este é o sentido da minha vida. Além, é claro, da minha família, dos meus amigos...

O palestrante não desistia de provocar a platéia:

– Quanto custa a sua vida? Por quanto você me vende o tempo que falta para você?

– Não vendo, nunca! – foi a resposta do diretor, como se a pergunta tivesse sido feita apenas para ele. A negativa saiu em um tom acima do que seria normal. Algumas pessoas viraram-se e o encararam, numa mistura de censura, surpresa e, quem sabe, alegria pela convicção da resposta.

A palestra chegava ao fim. Hora de ir para casa. Mas a pergunta daquele sujeito não lhe saía da cabeça, assim como o “barulhinho bom” dos seus alunos...

– Tubo bem! Eu não a vendo... Nem a alugo... Eu, honrosa e prazerosamente, dôo a minha vida... Dôo-a para participar de uma comunidade dialógica de crianças, jovens, adultos e idosos e discutir a melhor maneira de viver neste planeta Terra, com plenitude humana, consciência crítica, paz, generosidade, inclusão social, fruição das diferenças, amor... sustentabilidade!

– Márcio! Márcio! Saia dessa introversão onírica e feliz e vá para a escola, que você já está atrasado, homem! – disse sua esposa, sacudindo-lhe os ombros, ao ver que um sorriso imenso lhe aflorara aos lábios.