Educação, ciência, tecnologia e inovação: a base para o desenvolvimento sustentável do país
É comum ouvir dizer que, a cada dia, surge um novo equipamento, um novo jogo eletrônico, mais moderno, mais inovador, com tecnologia de ponta. Mas a tecnologia e a inovação estão presentes não apenas nos equipamentos e jogos eletrônicos, elas estão em um procedimento médico, na fabricação de um alimento, "numa simples caneta e num avião que nos permite dar a volta ao mundo", como afirma René Teixeira Barreira, presidente do Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti) e secretário de Ciência e Tecnologia e Educação Superior do Ceará.
Pelo fato de a tecnologia e a inovação se fazerem presentes no dia a dia das pessoas e estarem tão relacionadas ao desenvolvimento sustentável de uma nação, faz-se necessário investir em pesquisas, compartilhar o conhecimento e diminuir as diferenças regionais. Para isso, é necessário coordenar e articular os interesses das Secretarias Estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação e aperfeiçoar a Política Nacional do setor. Essa é a missão do Consecti, do qual René Barreira é presidente desde abril de 2009.
Cearense de Jaguaribe, ele é graduado em Ciências Sociais, mestre em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e especialista em Gestão de Universidades pela Organização Universitária Interamericana, em São Paulo e no Canadá. Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, por muito tempo ele se dividiu entre a sala de aula e a administração universitária.
Em entrevista à Linha Direta, ele fala sobre o cenário da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no país, define os avanços e as metas do Consecti para este ano e ressalta a necessidade de investir em educação.
Como está o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil?
A ciência e a tecnologia passam por um momento ímpar no país. O aumento no investimento oriundo dos fundos setoriais e outras fontes estimularam os estados a potencializarem os recursos internos, valorizando as instituições locais. O Programa de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação, instituído pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em parceria com as unidades da Federação, traça um plano de longo prazo para a continuidade das políticas de Estado e possibilita ao Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação ações sustentáveis tanto na pesquisa quanto no desenvolvimento econômico e social.
Que relação se estabelece entre ciência, tecnologia e inovação e o desenvolvimento sustentável de um país?
É importante frisar que o desenvolvimento sustentável que nós buscamos é tanto de ordem econômica, quanto social e ambiental. No aspecto econômico, podemos citar a inovação, que possibilita, por exemplo, a exportação de apenas uma unidade de tecnologia avançada, como um laptop, a um preço superior ou equivalente a uma tonelada de commodities, como a soja. No aspecto ambiental, a ciência e a tecnologia propiciam melhor aproveitamento de nossos recursos naturais, ou até mesmo a substituição deles por opções ambientalmente mais sustentáveis. No aspecto social, ao levar conhecimento e qualificação para as pessoas das mais diversas regiões do país, permite-se a diminuição da grande diferença social entre as classes e proporciona-se maior igualdade de oportunidades para toda a população.
E qual a relação com a educação e o bem-estar social?
A tecnologia está presente numa simples caneta e num avião que nos permite dar a volta ao mundo. Os novos tratamentos médicos, os novos e extraordinários meios de comunicação, tudo isso se conquista através do compartilhamento e da democratização do conhecimento. Daí a necessidade de levarmos educação para todas as pessoas, de todas as faixas etárias.
O que ainda falta ao Brasil para atingir patamar de desenvolvimento científico e tecnológico semelhante ao de países desenvolvidos?
Acredito que devemos começar a olhar com mais atenção para a educação, aumentando os investimentos, principalmente, na educação básica, o que reflete no Ensino Superior e na pesquisa científica e tecnológica. Veja o exemplo da Coreia do Sul, que, depois da sua reforma na educação básica, passou a crescer, em média, 9% por três décadas e, hoje, é um dos líderes em inovação tecnológica. Outra questão importante é a necessidade de buscarmos a consolidação do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, por intermédio do fortalecimento das Políticas Estaduais de CT&I. Isso beneficiará o desenvolvimento local e sustentável, dando suporte, de maneira transversal, às demais áreas estratégicas das unidades da Federação.
Quais os principais avanços já alcançados pelo país nessa área?
Nossos principais indicadores nacionais refletem a evolução da ciência, da tecnologia e da inovação no país. Hoje, vemos, cada vez mais, pesquisas nas nossas universidades, temos uma quantidade maior de mestres e doutores, a expansão das redes de pesquisa, além de investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento dentro das empresas. Tudo isso faz parte dos resultados imediatos desses avanços. Já para o longo prazo, tivemos, em maio, um grande avanço com a realização da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Mais de quatro mil pessoas, entre autoridades, empresários, pesquisadores e estudantes, se reuniram para debater propostas para construir o documento que vai estabelecer uma política de Estado, e não apenas de governo, para a ciência, a tecnologia e a inovação nos próximos 10 a 20 anos. E nós, do Consecti, nos sentimos orgulhosos por termos participado ativamente dessa construção, principalmente nas etapas estaduais e regionais da Conferência.
Como o Consecti atua para o desenvolvimento do setor?
O Consecti tem oferecido importante contribuição para a implantação de um modelo sistêmico de gestão de CT&I no Brasil. A ideia é articular as diferentes esferas de governo em ações conjuntas e mais ajustadas às diferentes realidades econômicas e sociais do país. Sendo assim, as articulações que acontecem nos Fóruns Nacionais do Consecti são um dos fundamentos para as ações cooperativas propostas nesse modelo sistêmico de gestão. Busca-se, sobretudo, o fortalecimento dos sistemas estaduais de CT&I e, por conseguinte, do pacto federativo.
Para a concretização, são priorizadas, ainda, a cooperação tecnológica entre os sistemas estaduais de inovação, a ampliação das parcerias institucionais e a articulação política com o Congresso Nacional.
O que foi feito pelo Consecti nesse seu primeiro ano de gestão?
Tivemos avanços fundamentais. Alguns deles foram a realização de eventos que mobilizaram os setores ligados à ciência e tecnologia e enriqueceram o debate em torno de temas importantes, como o 3º Seminário Tecnologias Estratégicas Brasil e Itália; o 1º Seminário Tecnologias Estratégicas Brasil e França e o Seminário Internacional de Tecnologias Sociais. Oferecemos amplo apoio à realização da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI) e à Conferência Nacional de Educação (Conae). Temos nosso ciclo de Capacitação de Técnicos dos Sistemas Estaduais de Ciência e Tecnologia, que se realiza graças a uma ampla parceria envolvendo o Consecti, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a União Europeia e a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).
Também estamos fortalecendo a nossa comunicação. Criamos uma nova proposta para o site do Conselho, com informações de todos os sistemas estaduais de CT&I. A intenção é nos comunicarmos melhor com a sociedade, divulgarmos o trabalho das secretarias e estreitarmos os vínculos entre os sistemas.
Como diminuir as desigualdades regionais?
As diretorias regionais do Consecti têm atuado, principalmente, no sentido de fortalecer as instituições locais e diminuir as diferenças entre os estados e regiões. Um exemplo desse trabalho foi a instalação, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia e instituições locais, de redes de pesquisas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Nossa parceria com instituições de natureza regional – como Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Banco do Nordeste e Banco da Amazônia – tem gerado dividendos nas regiões. Uma de nossas articulações mais recentes, com a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), está planejando a implantação de Centros Vocacionais Tecnológicos (CVTs) nos estados nordestinos, num investimento de mais de R$30 milhões.
Quais são as metas do Consecti para este ano?
As principais são: 1) Apoiar a operacionalização das Conferências Estaduais e Regionais de Ciência, Tecnologia e Inovação; 2) Intensificar o intercâmbio dos estados por meio de reuniões regionais; 3) Capacitar os gestores de programas e projetos nos estados para apresentação de propostas à União Europeia; 4) Promover a quarta edição do Seminário Tecnologias Estratégicas Brasil e Itália e a segunda edição do Seminário Tecnologias Estratégicas Brasil e França; 5) Reformular o portal do Consecti, com notícias dos estados; 6) Monitorar a Rede Norte de Biotecnologia e Biodiversidade e a Renorbio; 7) Articular o fortalecimento, nos estados, das redes Cerrado e Centro-Oeste; e 8) Fortalecer os projetos de ensino profissionalizante através de uma articulação maior com o Ministério da Educação.