PERFIL
Sistemas de ensino na berlinda


Pesquisa revela a eficácia de sistemas de ensino na rede pública do estado de São Paulo A pesquisa sobre o impacto dos sistemas estruturados de ensino na proficiência dos alunos da rede pública municipal do estado de São Paulo foi realizada, em 2009, pela Fundação Lemann em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e teve por objetivos principais: política educacional – inovações pedagógicas: material didático e de sistemas de ensino; convênios das prefeituras de São Paulo com sistemas privados educacionais que oferecem sistemas estruturados de ensino (material didático e proposta pedagógica); pano de fundo – Fundef e autonomia dos municípios de SP, promovida pela reforma estadual de descentralização do Ensino Fundamental a partir de 1996.

Este trabalho procurou responder a três perguntas: (1) Estes sistemas de ensino melhoram o desempenho dos alunos? (2) São mais eficientes em municípios com pior desempenho inicial? (3) O desempenho dos alunos depende do tempo de exposição a tais sistemas? A Revista Linha Direta convidou o educador Marco Antônio Ferraz para uma reflexão sobre os dados da pesquisa. Biólogo, habilitado em pedagogia na área de administração escolar, Ferraz é, hoje, diretor do sistema de ensino Ser, da Abril Educação.

Na pesquisa realizada pela Fundação Lemann ea FGV, 79% dos entrevistados consideram bom osistema de ensino utilizado em seu município. Oque um bom material didático deve propiciar?

O material didático é, basicamente, um suporte teórico à aula dada. Ele deve ampliá-la com propostas, exercícios, atividades e textos e permitir ao aluno uma reflexão sobre aquilo que ele estudou com seu professor e, por que não dizer, a provocação para que ele busque outras formas de pesquisa, trabalhos, interesses... Enfim, o material didático é o grande companheiro de estudo em casa e na escola.

O livro do professor contribui para a prática emsala de aula?

Sem dúvida. O que acontece é que, muitas vezes, as escolas não definem claramente para o professor as linhas pedagógicas adotadas pela instituição. E, quando isso acontece, a tendência é cada um dar aulas de acordo com suas preferências metodológicas. Como cada criança tem rendimento próprio e pode apresentar progressos diferenciados, o ideal seria que todo docente tivesse um “menu” metodológico diversificado para atender bem todos os alunos de uma classe. Nesse sentido, o livro do professor vem ampliar seu universo de ação. A pretensão não é ensiná-lo a dar aula, mas sim propor caminhos que permitam a ele maior variedade metodológica.

Em relação à capacitação oferecidapelos sistemas de ensinoaos professores, 7% dos entrevistadosconsideram que elanão está próxima da realidadeda sala de aula. Qual deve ser ofoco da capacitação?

Repare que esse é um número muito baixo. Toda capacitação tem duas dimensões: não existe a prática sem a fundamentação, porque isso é empirismo, e não existe fundamentação sem prática, porque essa se perde no academicismo.

É preciso que toda a proposta de capacitação se relacione com o cotidiano, com o chão da sala de aula, com a prática docente, mas que não perca de vista a fundamentação teórica que sustenta a prática.

O que diferencia um sistema deoutro?

Basicamente, os serviços prestados. Eu digo isso porque, hoje, indiscutivelmente, a grande maioria dos sistemas de ensino tem material didático de boa qualidade, contudo uma coisa que precisa ficar clara é que cada sistema tem a sua proposta. Em educação, é muito difícil falarmos em homogeneidade. Podemos ter três sistemas ensinando de três maneiras diferentes. Isso faz com que toda proposta pedagógica quase que seja única. Cada uma tem a sua identidade. Eu poderia, inclusive, dizer que não existe uma pedagogia neutra ou pasteurizada. Todas trazem um componente ideológico, político, de concepção de ensino e de aprendizagem e, portanto, contêm nuances próprias.

Por que um número tão elevadode entrevistados, 84%, consideraque o desempenho do alunoé melhor após a adoção de umsistema de ensino?

Primeiro, porque o sistema de ensino leva a escola da rede a apresentar um resultado mais uniforme. Se cada professor escolher um livro didático e adotar um método, a rede acaba ficando muito heterogênea. Se o aluno sai de uma escola e vai para outra, parece que mudou de rede. Segundo, porque o sistema de ensino dá um suporte muito grande à prefeitura. Uma equipe de profissionais e especialistas auxiliam os professores, as famílias e a direção da escola. O sistema de ensino tem uma série de outros produtos e serviços que auxiliam o docente e o aluno no seu aprendizado – portal, material complementar, etc.

O professor que não está tãobem preparado se sai melhorquando utiliza um sistema deensino?

Os sistemas de ensino normalmente trazem a proposta de educação melhor estruturada do que o livro didático. O livro é como se fosse um compêndio sobre o assunto, e o sistema, um compêndio sobre o assunto para a prática do dia a dia. Isso ajuda o professor a se estruturar. Mas veja, uma coisa é entregar ao professor o material distribuído por aula. Isso vai engessar o trabalho dele. Outra coisa é dizer a ele: “Aqui está uma orientação para que você se estruture, mas você é livre, pegue se quiser, faça como quiser”.

A satisfação dos pais é tambémmuito elevada, 93%...

O pai percebe que a criança apresenta melhores resultados de aprendizado, que a escola se apresenta mais organizada, que o fi lho está mais feliz. O pai, por tabela, se sente também mais feliz e seguro.

Gostaria de acrescentar algo anossa entrevista?

Que sistema de ensino não é a panaceia para a educação pública, como poderíamos depreender da análise desta pesquisa. Mas, por outro lado, ela confirma o valor de um sistema de ensino no trabalho com as prefeituras que buscam, cada vez mais, uma educação de melhor qualidade.

Foto: Arquivo Abril Educação.