CAPA
O desafio da UNESCO no Brasil e no mundo


Vincent Defourny Representante da UNESCO no Brasil
 

A importância da cooperação internacional para transformar o futuro da humanidade a partir de uma educação para o desenvolvimento sustentável

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) foca sua atuação nas áreas de Educação, Ciências Naturais, Ciências Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação, definindo algumas ações estratégicas, tais como: apoiar os esforços nacionais para atingir os objetivos de uma educação de qualidade para todos; prestar cooperação técnica para o fortalecimento das políticas e práticas educacionais; promover a gestão integrada dos recursos hídricos, o acesso à informação, o uso de tecnologias de informação e comunicação na educação e o diálogo entre culturas e civilizações.

Representante da UNESCO no Brasil desde maio de 2006, Vincent Defourny, em entrevista exclusiva à Revista Linha Direta, afirma que o desafio da organização, no Brasil e no mundo, é contribuir para que as políticas públicas sejam realmente colocadas em prática, em busca de uma sociedade mais sustentável, mais viável e baseada nos direitos humanos para uma cultura de paz.

Para isso, a UNESCO atua no país por meio de projetos de cooperação técnica com o governo, tomando como base compromissos nacionais e internacionais firmados pelos estados-membros. Defourny acredita que é com cooperação internacional e com uma educação para o desenvolvimento sustentável que poderemos transformar o mundo. “Não é um problema só do Brasil, é do Brasil também. Então, não podemos agir isoladamente. O país tem que fazer seu dever de casa, como os EUA, a China e outros também devem fazer”, diz. Acompanhe entrevista com ele, que nasceu na Bélgica e é doutor em Comunicação pela Universidade Católica de Louvain.

Como você avalia o esforço mundial pela educação?

É muito claro que não podemos ter um mundo com desenvolvimento sustentável se não tivermos uma educação para o desenvolvimento sustentável. Uma educação em todos os sentidos, para as crianças, os jovens e os adultos. E não é só educar por educar, mas para transformar vidas, transformar a sociedade, tornar mais sustentável o planeta no qual estamos vivendo, com mais justiça social e um compromisso ambiental forte.

Temos que reconhecer que o analfabetismo, no Brasil e no mundo, é um problema ainda muito grande. E não se trata apenas de iletrismo, mas também da incapacidade de se ler um texto básico ou de interagir com a internet, com os novos meios de comunicação, com as novas tecnologias.

Qual o grande desafio da UNESCO no Brasil?

Para a UNESCO e a ONU em geral, o grande desafio é ajudar o país a tornar concreto o que está escrito nas leis. O Brasil tem se comprometido muito com grandes questões internacionais, como os Objetivos de Dakar, que são as seis metas para a educação de qualidade para todos até 2015. Tem colocado os direitos humanos, os direitos da mulher em seus textos. Leis há. Mas a implementação ainda está muito aquém do que poderia ser feito.

Qual o papel da UNESCO?

Acompanhar o país para ajudá-lo a trabalhar uma realidade concreta e corrigir assimetrias, a fim de tornar o futuro mais coerente com as aspirações que estão nos textos fundamentais, tanto nacionais quanto internacionais. Isso significa que trabalhamos com o governo federal, os estados, os municípios, a sociedade civil e o setor privado para tentar mudar essa realidade. É um trabalho que tem várias dimensões. Às vezes, é ajudar a implementar as políticas públicas, é ser piloto de novas práticas, é trabalhar a comunicação e até um papel de cobrança dos governantes.

A UNESCO significa uma aspiração, um desejo da comunidade internacional de criar uma cultura de paz, um desenvolvimento sustentável baseado nos direitos humanos. E todos esses elementos estão muito bem articulados em nosso trabalho pela ciência, educação, cultura e comunicação. Tudo isso é a esperança de um mundo melhor. Por isso, também estamos envolvidos com o projeto Criança Esperança, numa parceria com a Rede Globo.

Mas, ao mesmo tempo que cobramos e dizemos qual a direção a seguir, mostramos, na prática, como isso pode acontecer. Por isso, trabalhamos a melhoria da gestão dos recursos hídricos e tentamos transformar a administração pública em uma administração mais aberta e capaz de se comunicar com o cidadão. Também estamos muito envolvidos com a questão do acesso à informação pública. Estamos trabalhando com a CGU [Controladoria Geral da União], com a Casa Civil, para tornar o acesso à informação algo possível, porque isso é parte das democracias modernas.

Qual a importância da integração entre as diversas áreas, como educação, ciência e cultura?

A realidade é complexa. Não dá para olhar os problemas por um ângulo só. Temos que ver a problemática educacional e tocar no ponto da diversidade cultural, por exemplo. A questão dos afrodescendentes é cultural, mas tem tudo a ver com a educação e o desenvolvimento. Estamos trabalhando pela melhor implementação da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira. Estamos traduzindo para o português a história geral da África, uma obra de oito volumes. É a primeira obra escrita por pesquisadores africanos sobre a África. Trazer isso para o Brasil é uma forma de dizer que o continente africano tem uma história própria, que não aquela contada pelos europeus. E essa é parte da história brasileira também. É preciso traduzir e fazer uma adaptação pedagógica para as salas de aula. Isso tem a ver com reconhecimento da diversidade cultural. O Brasil dará o pulo de que precisa quando realmente entender os fundamentos de suas raízes. A própria história do Brasil é marcada por uma segregação forte, que ainda existe. Estamos falando das relações étnico-raciais, mas poderíamos falar das relações de gêneros. Na América Latina como um todo, há mais meninas que meninos na escola. Mas nos altos cargos há poucas mulheres. É uma situação de desequilíbrio que precisa ser trabalhada.

É parte de nossos objetivos trazer essas temáticas para a agenda pública brasileira. E, como você falou, não podemos trabalhar individualmente educação, cultura, comunicação. Temos que articular, porque os problemas que vemos hoje existem por falta de educação, de conhecimento, de consciência ambiental e do respeito individual.

A UNESCO significa uma aspiração, um desejo da comunidade internacional de criar uma cultura de paz, um desenvolvimento sustentável...

O senhor acredita que estamos todos no caminho certo?

Acredito que estamos avançando, olhando os problemas. Esse é o primeiro passo. O grande educador Paulo Freire falava muito disso, de primeiro entender sua própria realidade para poder transformá-la. Percebo que a agenda internacional está melhorando bastante. Existe um movimento mundial que não vai se satisfazer com palavras; precisamos de ação, de compromissos concretos, porque sabemos que nosso futuro está comprometido. Precisamos de uma atuação rápida e urgente. Temos problemas mundiais, como o ambiental.

Mas não é um problema só do Brasil, é do Brasil também. Então, não podemos agir isoladamente. O país tem que fazer seu dever de casa, como os EUA, a China e outros também devem fazer. É com essa cooperação internacional que podemos transformar o mundo, o futuro da humanidade. Os geólogos dizem que, da mesma forma que no passado tínhamos vários períodos geológicos, hoje estamos entrando em um período caracterizado pela interferência do homem sobre o próprio planeta. Claro que algo vai acontecer. Mas o nosso comportamento é que está em jogo.

E como é estar à frente de uma organização que lidera esse movimento?

Eu me sinto um funcionário da UNESCO, que é o clube de todas as nações. Temos que pensar que a UNESCO é esse compromisso comum dos 193 países do mundo em ter uma cultura de paz, um desenvolvimento humano e sustentável, que passa por uma cultura celebrada por sua diversidade, por uma comunicação capaz de transformar a realidade das pessoas. Acho que a UNESCO é todo esse conjunto de desejos. E, como representantes, tentamos fazer avançar essa agenda. Esse é o nosso papel. A diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, em visita ao Brasil, foi muita clara ao dizer que temos que mobilizar a mídia, a opinião pública, para trazer essa agenda. A preocupação não é a visibilidade da organização, porque não vendemos absolutamente nada; o que pretendemos é indicar o norte e trabalhar essa agenda internacional para criar uma direção, importante para todos nós.

Foto: Ricardo Labastier